Em Conversa · Edu Prado

Edu Prado é músico, produtor musical e compositor, residente em Dublin e natural de Curitiba, Paraná. Seu interesse pela música começou bem cedo, com o velho piano de sua avó. Mais tarde, Edu começou a estudar teoria musical, violino e tocar bateria; depois foi para o baixo elétrico, violão, piano e canto. Por volta dos treze anos, ele começou a compor canções e a tocar em bandas.

Ele também cria seus próprios sons e bibliotecas de samples e em 2020 passou a compartilhar seus instrumentos virtuais como Edu Prado Sounds.

Conversamos sobre sua vida como músico e também sobre os vídeos criativos que ele cria em seu canal do YouTube. Especialmente durante a quarentena, Edu inspirou pessoas a olharem as coisas de maneira mais criativa.

Junte-se a nós nesta conversa!

Edu, gostei do vídeo em que você tocou “Shape of You” usando um notebook. Especialmente os sons criados ao rasgar uma folha de papel; lembrou-me de quando, durante a quarentena, rasguei muitos papéis, o que me deu uma boa sensação para o momento em que vivíamos! O que as suas criações durante esse período desafiador te fizeram sentir?

Creio que o momento de pandemia e longos períodos de lockdown foram muito difíceis para todos, e por isso foi muito importante para mim continuar criando e desenvolvendo novos projetos durante esses meses.

As novas criações que surgiram durante a pandemia, como fazer música com um caderno ou usando pimentões como instrumentos, fizeram-me sentir muito alegre e motivado. A energia para criar esses projetos veio principalmente da ideia de inspirar outras pessoas a usarem a criatividade e verem o dia-a-dia por uma perspectiva diferente.

A sensação é de que mesmo quando o mundo pára, nós continuamos em frente!

Minha irmã é canhota e sempre achei que ela fazia as coisas de uma forma meio desajeitada. Vejo que é puro engano meu! Você, por exemplo, faz tudo! Desde a produção e composição musical até a divulgação do seu trabalho? Nos conta sobre como você administra todas essas tarefas.

Haha, que legal! Talvez isso tenha um pouco de verdade, acho que nós canhotos gostamos de fazer as coisas de formas um pouco diferente!

Como administro tudo ao mesmo tempo? Boa pergunta, pois isso é um desafio constante. Tenho tentado estudar e desenvolver-me mais em relação à produtividade e organização, acho que são elementos fundamentais para quem gosta de criar coisas novas. Algo que me ajudou a aprender organizar o meu tempo foi a época de faculdade, quando fiz duas universidades ao mesmo tempo, estudando Composição e Produção Musical (UFPR), e Tecnologia em Mecatrônica (UTFPR). Teve um semestre em que precisei dar conta de 17 disciplinas ao mesmo tempo, com aulas das 7am às 7pm aproximadamente. Foi um tempo caótico e de dedicação total, então a única forma de dar conta de tudo foi aprender a aproveitar cada minuto.

E acredito que essa experiência me ajuda nos projetos que desenvolvo hoje em dia. É importante sempre ter objetivos claros, e organizar o tempo da melhor forma possível, priorizando e colocando todas as atividades no calendário, quebrando projetos grandes em várias pequenas atividades. Procuro desenvolver-me um pouco a cada dia, mas ainda há muito para melhorar, pois a sensação é de que não consigo colocar todas as ideias e projetos que tenho na cabeça em prática. Quem sabe um dia chego lá.

A música aconteceu cedo na sua vida, com o contato que teve do piano de sua avó. Acredita que essa influência lhe fez criar uma relação afetiva ou sentimental com a música e os instrumentos que toca?

Mesmo não vindo de uma família de músicos, acredito que esse contato desde cedo com diferentes instrumentos foi muito importante. Acho que estar exposto à instrumentos musicais, diferentes estilos de música, e poder tocar e experimentar com o piano de minha avó ajudou a desenvolver uma grande curiosidade e uma vontade enorme de criar! Com certeza há uma grande relação sentimental com a música e os instrumentos que toco, pois essa é a maneira que encontro para expressar-me, se tornando algo fundamental em minha vida. Acho interessante também que minha relação e conexão com cada instrumento que toco é diferente, cada instrumento evoca sensações e emoções diferentes. 

Qual foi a sua produção mais divertida e a mais transformadora que fez?

Hmmm, pergunta complicada. Pois cada projeto e cada produção acaba desenvolvendo um significado diferente. Com certeza uma das experiências mais transformadoras que tive foi compor e gravar com uma orquestra de 110 músicos, em Sofia – Bulgária (Composição The Endless Journey). Esse foi um dos projetos finais do mestrado em Composição Para Filmes e Mídia Visuais. Outras produções transformadoras recentes, que eu nunca havia imaginado em fazer, foi compor a trilha sonora para o seriado da Viaplay chamado “Red Election”, junto ao compositor irlandês Kormac; e também a gravação e produção de várias óperas incríveis com a Irish National Opera, como Elektra de Richard Strauss, La Boheme de Giacomo Puccini, Alice’s Adventure Underground de Gerald Barry, entre outras.

Contudo, talvez as produções mais divertidas foram criar os instrumentos virtuais a partir de objetos que não são instrumentos musicais, usando um caderno e outro usando pimentões — e tive que comer muitos pimentões no final do projeto! Gosto muito da ideia de criar coisas inesperadas e brincar com a criatividade.

O que te fez vir para Dublin?

Eu sempre quis ter uma experiência internacional, e poder morar fora do Brasil, para conhecer novas culturas e pessoas do mundo todo. Eu vim para Dublin em 2017 para fazer um Mestrado em Composição para Filmes e Mídias Visuais (MA in Scoring for Film and Visual Media), na Pulse College e DIT (agora TUD). Foi um sonho e uma experiência única, poder estudar com grandes nomes do cinema mundial, estudar e gravar no Windmill Lane Recording Studios, e estudar com pessoas incríveis de mais de 11 países diferentes. 

Depois disso, e com muita luta, pude continuar em Dublin, trabalhando nos mais diversos tipos de projetos envolvendo arte, música, e vídeo.

Um de seus projetos recentes foi gravar o órgão de tubos da Christ Church Rathgar e transformá-lo em um instrumento virtual, como foi essa experiência? O que te mais te inspira na Irlanda?

Gravar o órgão de tubos (que tem mais de 100 anos) da Christ Church Rathgar foi uma experiência única, algo que nunca imaginei que faria um dia! 

Durante a pandemia comecei a criar bibliotecas de sons para instrumentos virtuais, onde você grava os sons de um instrumentos, e programa de forma que outras pessoas e compositores possam tocar em seu computador usando Samplers e teclados midi. O primeiro projeto foi gravar meu violão usando um arco de Cello.

O projeto do órgão consistiu em gravar todas as notas e os diferentes sons desse órgão de tubo especificamente, e programar e criar a biblioteca de sons. Foi muito divertido e inspirador ver esse projeto se tornando realidade, pois no começo eu nem sabia se daria certo. E no fim, o resultado final do instrumento virtual (Sample Library ou Biblioteca de Sons) foi impressionante! A ideia era conseguir capturar a experiência de sentar na igreja e sentir o poderoso som do órgão te envolvendo, para isso é importante gravar não apenas o som diretamente do instrumentos, mas de toda a ressonância da catedral da igreja.

O que mais me inspira na Irlanda são as pessoas e a sua história, e quanto a cultura Irlandesa é conectada com a música! Tanto que o símbolo do país é um instrumento musical, a harpa. Adoro a música tradicional irlandesa, mas ainda preciso aprender a tocar!

Ano passado você lançou o álbum “The Endless Journey”, nos conta sobre ele?

O álbum “The Endless Journey” é muito importante para mim, pois marca uma nova etapa na minha vida, e é um álbum bastante diferente de tudo que eu havia feito antes. O álbum é uma coletânea de composições e músicas instrumentais dos últimos anos desde que vim para Irlanda. A maior parte de músicas foram compostas durante o período do meu mestrado, e gravadas com orquestras de verdade. Foi algo novo para mim pois o meu background em gravação e produção vem mais de um estilo pop e rock. Então foi a primeira vez que gravei, mixei e produzi com orquestras. Definitivamente aprendi e me diverti muito, mas ainda há um longo caminho pela frente.

O álbum como um todo conta a história e o processo de mudar para um país diferente, e passar por mudanças radicais na vida, com momentos tensos e difíceis, momentos de paz e reflexão, momentos de suspense e intensidade, e até alguns momentos triunfantes e de conquistas! As músicas estão em ordem cronológica e representam momentos diferentes da minha vida. O álbum fala do aprendizado de que as mudanças em nossas vidas são parte de uma jornada sem fim.

O que esperar de suas criações artísticas depois de um vídeo com instrumentos feitos de pimentões; trilha sonora para filmes e séries como Professionals e Red Election; e a composição de uma peça de orquestra sinfônica? 

Boa pergunta, porque nem eu sei exatamente o que esperar! O mais importante para mim é continuar criando projetos artísticos que de alguma forma possam inspirar e motivar outras pessoas!

Para esse ano de 2022 já tenho várias ideias para novas bibliotecas de som criativas que quero fazer. Quero poder criar mais vídeos divertidos e criativos para o meu canal do YouTube; e também tenho um novo projeto de compor e produzir um novo álbum tocando vários instrumentos, e com a participação de diferentes músicos que conheci nesses últimos anos como convidados especiais.

Muito obrigado por me convidar! Foi um prazer, e parabéns pelo excelente trabalho que você faz com a Diáspora Cultural!

Nós que agradecemos; desejamos muito successo na sua jornada, Edu!