Sebastião Salgado, entre luz e sombra

“Em grego, ‘fós’ significa luz, e ‘grafê’ significa escrever, desenhar…” 

Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em 8 de fevereiro de 1944, em Aimoré, Minas Gerais. Após descobrir a verdadeira vocação, o estudante e pós-graduado em economia, tornou-se um dos maiores talentos da fotografia mundial. Recebeu diversos prêmios e foi eleito membro da Academia Americana de Artes e Ciências dos Estados Unidos e para o Quadro de Cadeias de Fotógrafos da Academia de Belas Artes da França.

O documentário “O Sal da Terra” (2014), dirigido pelo seu filho Juliano Salgado e pelo fotógrafo Wim Wenders, recebeu um prêmio especial no Festival de Cinema de Cannes, e foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário de 2015.

O documentário “O Sal da Terra” retrata a história que Sebastião desenhou pela vida, usando luz e sombra. Ele reporta o que e como seus olhos enxergaram nessas viagens, e sobre as belezas e barbaridades do mundo. 

Iniciando essa jornada em uma mina de ouro na Serra Pelada, no Brasil, Sebastião se vê na construção da humanidade. As mais de 50 mil pessoas naquele buraco o fez comparar com a construção das Pirâmides do Egito. Homens e mulheres se assemelhando a escravos, mas escravos da ambição de se tornarem ricos. Muitas dessas pessoas eram trabalhadores ou possuíam diplomas universitários, mas estavam alí às suas sortes, apostando na independência e liberdade produzidas pela esperança.

“Uma coisa percebi logo sobre Sebastião Salgado, que ele se importava de verdade com as pessoas. E isso têm importância para mim. Afinal, as pessoas são o sal da Terra.”

Winder Wenders, em O Sal da Terra

O estudo em economia se deu pela exigência do pai, que possuía uma fazenda em Aimorés, divisa de Minas Gerais com Espírito Santo. Era uma fazenda “sob um enorme céu, entre a mata atlântica e o rio, na época navegável.”

Sebastião e suas sete irmãs nasceram nesse vilarejo, quando os trens saíam de Minas Gerais com minérios de ferro para o resto do mundo.

Com 15 anos de idade, Sebastião mudou-se para Vitoria, em Espírito Santo. Foi quando conheceu a estudante de música de 17 anos, Lélia. Casaram-se e mudaram-se para a França após o ano de 1960, período da ditadura no Brasil.

Sebastião tinha intenção de seguir a carreira de economista e trabalhar no Banco Mundial. Viajou com frequência para a África para projetos de desenvolvimento, e foi em uma dessas viagens que a fotografia lhe promoveu enorme prazer. Ele então abandona a carreira de economista para virar fotógrafo, com o apoio da esposa. Os dois mudam-se para Paris e investem tudo que tinham em equipamento fotográfico.  

Ao fotografar um grupo indígena nos Andes, no sul do Equador, os “Saraguros,” Sebastião relata que o tempo parecia ser lento e distinto dos demais tempos. Alguns se aproximavam de sua câmera como se ele gravasse suas vozes e suas historias. Como ele diz no documentário: “A força do retrato, é que naquela fração de segundo compreendemos um pouco da vida da pessoa fotografada.”

Seu filho, por ter vivido muitos anos longe do pai, foi tomado pelo anseio de conhecer a figura aventureira e artística de Sebastião. Em uma das viagens, na qual eles vão juntos, Sebastião fotogra morsas e cria uma relação com a literatura, comparando os dentes das morsas com o inferno de Dante.

Quando Sebastião retorna ao Brasil, após muitos anos fora, encontrou seus pais já idosos. A vocação na fotografia sempre como uma urgência de vida, o fez pegar o carro da irmã emprestado e ir desbravar o Nordeste, que sempre foi um sonho. Nessa época, a mortalidade infantil no Nordeste era alta, e ele contou muita história triste e chocante através de sua fotografia. Sebastião diz que aquele região, é ‘uma parte do mundo que a vida e a morte estão muito próximas’.

Em 1984 uniu-se aos Médicos Sem Fronteiras da França e foi para a África, passando dois anos reportando a fome e o martírio humano no maior campo de refugiados do mundo, impresso no projeto “Sahel: O Homem em Perigo” (1984-1986). Sebastião relata que a morte naquele lugar, era como a vida do dia a dia.

“Cada pessoa que morre é um pedaço do mundo que morre.”

Sebastião Salgado, em “O Sal da Terra”

As fotos de Sebastião tomavam cada vez mais destaques e abriam discussões nas opinião pública. Lélia organizava as exposições e assinava a maioria de seus projetos gráficos, também fazia as pesquisas junto de Sebastião para os temas e destinos dos projetos. 

O terceiro livro foi uma homenagem a homens e mulheres que construíram o nosso mundo. Uma dessas viagens foi para registrar os poços incendiados por Saddam Hussein após o fim da Primeira Guerra do Golfo, em 1991. Sebastião teve uma sequela na audição devido às explosões.

Seu projeto seguinte foi “Êxodos” (1993-1999) que registrou o deslocamento das populações. Fotografou refugiados em lugares como a Índia, Vietnã, Filipinas, Palestina, Iraque e América Latina.

Tristes aventuras, que adoeceram a alma de Sebastião. Nas ultimas viagens, testemunhou os extremos da existência e sobrevivência humana, o que o fez desacreditar na humanidade.

Seus pais adoeceram e então retornou à fazenda do pai, que já não era mais a mesma. Naquele lugar ‘entre a mata atlântica e o rio’ não havia mais pássaros, e a natureza tinha também perdido a esperança. Mas Lélia sugeriu que plantassem, e em dez anos de trabalho e espera, recuperaram o ecossistema do lugar que tinha sido destruído pela seca. Plantaram mais de dois milhões de árvores e transformaram a terra natal de Sebastião em sua cura para a falta de esperança. 

Sua vocação renasceu junto das árvores, no entanto, os projetos seguintes deveriam ter novos temas.

Sebastião queria fazer uma homenagem ao planeta, e descobriu que quase metade do planeta continua sendo como no dia do gênesis. Então, deu luz ao projeto “Gênesis” (2001-2013).

“Durante oito anos, dediquei meu tempo a olhar, até compreender o mais importante: sou a natureza, tanto quanto uma tartaruga, uma árvore ou uma pedra.”

Sebastião Salgado, em “O Sal da Terra”

Sebastião capturou belezas naturais e culturais de lugares e povos que continuam vivendo de acordo com suas antigas tradições. Ele descobre que a tribo indígena citada em escrituras pelos jesuítas no século XVI ainda estava lá, intacta.

Os índios nús, com os lábios inferiores furados por um tubo, não se importaram tanto com a câmera do fotógrafo, mas com a sua faca. Um deles pediu que Sebastião lhe desse a faca, mas a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) fez-lhe prometer que não daria, para que preservasse a pureza dos índios. 

A terra da família Salgado é agora o “Instituto Terra”, um parque nacional aberto à todos. Sebastião reside na França com Lélia, os filhos Juliano e Rodrigo, que tem Síndrome de Down; e junto da esposa, criou a agência “As Imagens da Amazônia” para representar os seus trabalhos. 

Sua exposição “Amazônia” será realizada pela primeira vez ao público brasileiro no dia 14 de setembro. Coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a exposição em videoconferência irá exibir 200 painéis fotográficos sobre a região amazônica.   

Para participar, acesse este link.

Curto vídeo com algumas fotografias de Gênesis