Acordei ilegal hoje • Adriana Ribeiro

Acordei ilegal hoje. Foi como se o Sol, ao bater nas portas irlandesas, tocasse trombetas anunciando meu estado e, se saísse na rua, todos me olhariam com o olhar feio de julgamento: – Olha lá um ilegal! Na cama, fitava o teto. Um quadrado vazio assustador. Parecia que me engoliria a qualquer momento. Meu quarto, quer dizer, não mais meu, pois, se não pertenço a este lugar, nada aqui também a mim pertence, fez de mim indigestão. E foi assim que, do dia para a noite, me tornei refém do passaporte. Retirei-o da gaveta e abri como quem estivesse tirando a sorte no tarô, descruzei os olhos e a luz das páginas brancas revelavam a incerteza do futuro. O que vou fazer? A cada respiro, aprendia um som diferente da casa. Se alguém viesse me pegar, queria saber de onde viria. A rotina dos meus flatmates foi se desvendando aos poucos, sonoramente. E foi necessário apenas uma manhã para que eu aprendesse os 6 diferentes passos, respiros e movimentos que andavam pela casa. Qualquer som que se apresentasse diferente seria considerado suspeito.

Uma manhã inteira se passou e não ousei sair de casa. Pensava em como iria contar para a família, se devia contar, se perderia o emprego, em quem poderia confiar, se aquela desavença que tinha com aquele cara que trabalhei há dois anos representava perigo. Em meio a perguntas, me encontrei feliz e triste. A felicidade era aquela de quem nunca imaginou que iria viver o que viveu e, caramba… Olha só quanta coisa! A tristeza era por saber que nada daquilo iria se repetir. Não que a vida fosse uma volta de carro dentro do círculo do infinito, mas saber que talvez não pudesse frequentar os bares, as ruas e os parques de antes por falta de um simples carimbo me fazia sentir em vão. Isso mesmo. Eu sou vão. O desespero pareceu ainda maior naquele momento, então, abri o laptop e dei início às pesquisas. Para muita gente, a ilegalidade não é nada, vivem como se não pudessem ser pegos e, por isso, nem se escondem. E foi assim que achei que deveria viver. Me olhava no espelho como quem encarava o mundo. Sempre ouvi dizer que a Ilha Verde escolhia as pessoas, aceitando, então, que não era uma delas. Vai ver é assim em qualquer lugar do mundo. Quando se é um imigrante, temos a constante tarefa de provar que somos inocentes. Dinheiro, emprego, estabilidade emocional, saúde física e mental, tudo isso vai pro nosso histórico. Sinceramente, achei que estaria preparada para quando esse momento chegasse. Não tive como. E foi chorando que a aceitação veio. Larguei a imagem no espelho para escolher o que doar, vender, presentear, levar comigo e jogar fora.

As experiências e desejos estavam acumulados em objetos. Meu mesmo era pouco, quase nada. A ansiedade começou a tomar conta de mim mais do que o medo da ilegalidade. Era agora o anseio, o porto inseguro, que me afligia. A mesma sensação que tive quando sai do Brasil. Parecia adolescente apaixonado, pronto para cometer qualquer erro em nome de algo maior, uma paixão de verão com gosto de suco de maracujá. E tolos somos nós. A saudade foi chegando antes da hora com um bilhete na mão: “Não íamos todos alugar uma casa, ser eternos vizinhos e morar perto da praia”? Ah, se não fossem as amizades! Fizeram-me desfazer de cada pertence desnecessário à medida que arrumava a mala e pensava no próximo destino. Com a chegada da noite, o sentimento de partida já me dominava dando sinais de aceitação. Marquei o evento de despedida no Facebook, fiz uma lista do que fazer: “fechar conta no banco, dar baixa no PPS, beber pela última vez no canal, tirar uma foto legal do entardecer na ponte Ha’penny Bridge… Celular vibrou, era notificação do Face – “Ah, mais uma pessoa querida se indo, vai fazer falta, não poderei ir na sua despedida, pois tenho que trabalhar, foda! Mas passo aí para dar aquele abraço, tenho certeza que nos encontraremos ainda”.

A lágrima escorreu com sentimento de adeus. Valeu pela Guinness, Dublin!


Adriana Ribeiro é poetisa, escritora e está atualmente desenvolvendo a peça “On The Edge”, que nos faz refletir sobre o medo e a burocracia na sociedade. Ela é formada em Rádio e TV no Brasil e estuda cinema em Dublin, onde reside desde 2015. Tem poemas publicados na coleção “Trinta e dois quilos [Uma Antologia Brasil-Irlanda], da editora Urutau, e nas zines “FLARE”, organizados por “The Sunflower Sessions.”


[Crônica publicada em nossa primeira edição da revista Diáspora “Conexões Brasil & Irlanda,” em Dezembro, 2020.]

Imagem de capa via Flickr.