Em Conversa • Claudio Quintino Crow

Claudio Quintino Crow é músico, escritor, historiador, e pesquisador independente de cultura celta e irlandesa. Autor de “O Livro da Mitologia Celta” (2002); recebeu instrução e iniciação em Xamanismo Celta diretamente de John Matthews (2001) e em druidismo de Emma Restall Orr (2002); por vários anos, foi o representante no Brasil da British Druid Order (B.D.O.) e da Druid Network, tendo sido indicado pessoalmente por Emma Restall Orr. Associado à ABEI (Associação Brasileira de Estudos Irlandeses), tem seu trabalho reconhecido academicamente, sendo frequentemente convidado a apresentar palestras e comunicações em simpósios acadêmicos internacionais como o “Symposium of Irish Studies in South America” (diversas edições) e o “Simpósio de Estudos Celtas e Germânicos” (edição inaugural).”

“Só há vida quando há fusão entre a espiritualidade, a fé, a razão e a lógica.”

Quando e como o seu interesse e sua conexão com a Irlanda e a cultura celta surgiu na sua vida?

Esta pergunta tem uma resposta longa e uma curta… a curta é que houve, a princípio sem que eu percebesse, um processo de sedução que começou no início da adolescência, quando me apaixonei pelas paisagens da Irlanda e Grã-Bretanha, passou pela descoberta da cultura e da espiritualidade celta no início da juventude, quase simultaneamente ao fascínio da música tradicional irlandesa. Confesso que demorei algum tempo até me dar conta de que tudo isso estava interligado – foi como se a Irlanda ardilosamente me cercasse, me cortejasse… e o resultado foi uma paixão que se tornou amor e que, como costumo dizer, é recíproca. A Irlanda me oferece muito em termos pessoais, espirituais, culturais, e é apenas natural que eu retribua através de minha arte.

“toda religião é válida, quando seus mitos são compreendidos simbolicamente. Quando tentamos interpretar racionalmente os mitos, é aí que começam os problemas.”

Você conduz grupos de brasileiros aos locais sagrados e mágicos em visita à Irlanda, quais são esses locais e qual dentre eles você sente a mais profunda magia?

O itinerário de cada grupo é diferente, nunca um roteiro é igual a outro, porque a Irlanda tem mesmo muito a oferecer! É evidente que locais como Brú na Bóinne costumam arrancar muitos suspiros dos integrantes dos grupos, o mesmo vale para os Cliffs of Moher… Esses são alguns dos locais a que todos os grupos vão. Mas algumas das reações mais tocantes e pungentes eu testemunhei em locais menos conhecidos, alguns dos quais nem costumam receber turistas, pois os incluí a partir de minhas próprias pesquisas: entre estes, cito algumas das nascentes sagradas (St. Brighid, Tobernalt) e alguns dos sítios nas Ilhas Aran. Dos lugares mais conhecidos, Glendalough é talvez onde as pessoas mais se emocionem, mais sintam a conexão com o sagrado – a despeito da movimentação de outros turistas, nem sempre conscientes da história e da espiritualidade daquele local.

Seu trabalho é pautado em razão, fé, fato concreto, e historicidade, qualidades essas que seguem alinhadas com estudiosos que admiras como o Dr. Lawrence Jaffrey, psicólogo americano que escreveu: “A busca religiosa é algo inegável em nossos dias; contudo, o que há de novo em nossos tempos é que as pessoas não querem meramente uma fé sem razão, assim como não querem uma razão sem fé.”

Dizer que fé e razão precisam uma da outra é aceitar por fato os pensamentos que as religiões promovem? Como se dá a fé em alguém?

Estas são perguntas profundas, às quais psicólogos e sociólogos dedicaram vidas de trabalho sem que se chegue a uma fórmula mágica. De forma bem simplificada, penso que razão e espiritualidade são duas facetas de uma única realidade que de forma alguma se excluem, muito ao contrário: elas se complementam. Quando falamos de religião, muitas pessoas confundem uma dada denominação, seu conjunto mítico, as crenças que dele brotam e as práticas de seus seguidores. Mas nem sempre estão sempre alinhados. Num exemplo mais concreto, temos o cristianismo como uma denominação, os evangelhos como seu conjunto mítico, a crença na redenção dos pecados dele advinda, a ceia de Natal como exemplo de uma prática. Se não soubermos perceber onde começa um e acaba outro, se fizermos somente uma análise racional das coisas, o mistério da experiência espiritual não se apresenta. Parafraseando  o grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell, “toda religião é válida, quando seus mitos são compreendidos simbolicamente. Quando tentamos interpretar racionalmente os mitos, é aí que começam os problemas.”

Figuras importantes também definiram e disseminaram a idéia de que o mundo foi desencantado e trabalharam no resgate do encanto se utilizando da linguagem e literatura, como fez Nietzsche, Tolkien, Joseph Campbell e Michel Maffesoli. Pelos seus estudos, é possível delimitar o exato ponto na história onde o encantamento se perdeu? Qual foi esse ponto e quais são as profundas consequências de um desencantamento no “sagrado” para a humanidade?

Não há um único ponto, mas vários, num processo histórico contínuo. Penso que fatores determinantes são a polarização entre corpo e alma, fruto da influência ascética do Oriente sobre o cristianismo, seguida do Iluminismo, em que a dicotomia passa a ser entre mente e alma, a qual deságua no materialismo moderno, gerando percepções igualmente equivocadas como o consumismo desenfreado da sociedade de mercado e a, com o perdão do trocadilho, demonização do espírito pela dialética marxista. Em todos esses eventos vemos a ruptura de uma percepção amplamente difundida pelo pensamento celta de que tudo no universo, inclusive nós, humanos, possui uma identidade física – material, corpórea – uma mental – intelectual, racional – e uma espiritual – religiosa, mítico-mágica. O desequilíbrio entre essas três identidades pode ser visto como a base de praticamente todas as questões não respondidas em nossas vidas modernas; como todos esses nomes que você bem cita, penso que o resgate dos mitos – não como narrativas com começo, meio e fim, mas como veículos para a transmissão de saberes por seu simbolismo – é uma das formas de resgatarmos esse equilíbrio perdido.

Claudio, você é também músico, tocou violão e cantou com um projeto da banda GLÓR, palavra que significa “voz” em irlandês, participa de festivais irlandeses que acontecem no Brasil e tem sua banda FIANNA Irish Music. Estar envolvido com a música irlandesa é uma extensão da sua pesquisa? Você acredita ser capaz de mergulhar mais a fundo na tradição e cultura celta e Irlandesa através da música?

Seguramente! Venho de uma família de músicos – meu avô paterno era maestro, meu pai era um multi-instrumentista amador – e desde cedo a música é parte de minha vida. Na adolescência, cheguei a fazer dois anos de conservatório, mas minha alma rebelde não queria aquele formalismo – joguei-me de cara no hard rock e heavy metal (estamos falando dos 1980!), onde há espaço para o auto-didata, para o improviso, para a criatividade. Quando conheci a música irlandesa anos depois, vi um estilo que me tocou profundamente e que também valoriza essas características, e assim a transição foi natural, e aliei meus estudos da alma irlandesa à prática musical propriamente dita. Em todos os projetos que montei, como as bandas Glór e a atual Fianna, compreender a temática das canções e seu background histórico-cultural é tão importante quanto conhecer os acordes e notas. Tenho o privilégio de ter conhecido músicos talentosíssimos e que compreendem essa abordagem, que levamos para o palco a cada apresentação da banda Fianna. Para nós, tocar Irish Music é uma forma de sacerdócio, de conexão com a essência viva da Irlanda.

Como é esse espaço para os irlandeses que residem em São Paulo? (Há muitos?)

Infelizmente não. Temos pubs irlandeses tradicionais em São Paulo – como o Finnegan’s e, especialmente, o O’Malley’s – que abrem espaço para Irish Music ao longo do ano, mas a maioria só lembra de nós na semana de St. Patrick’s Day, [hehehehe].

“O grande poeta Khalil Gibran diz, “Não digas ‘encontrei a Verdade’, mas sim ‘encontrei UMA verdade’”. Perfeito.”

A idéia de que “mito e poesia são muito semelhantes”, apresentada por você e outros diversos estudiosos, por usarem linguagem simbólica do subconsciente e inconsciente, requer profunda interpretação, caso contrário o leitor pode confundir realidade com ficção? A incompreensão e a confusão pode ser prejudicial à história? Qual caminho percorrer em busca desse discernimento?

É como eu disse acima, parafraseando Campbell:  “toda religião é válida, quando seus mitos são compreendidos simbolicamente. Quando tentamos interpretar racionalmente os mitos, é aí que começam os problemas…” Faço grandes ressalvas a gente que faz uma descoberta espiritual legítima e honesta, mas que, ainda que com boas intenções, imponha essa descoberta como “A” verdade, “O” caminho. O grande poeta Khalil Gibran diz, “Não digas ‘encontrei a Verdade’, mas sim ‘encontrei UMA verdade’”. Perfeito.

“onde não há tempestades, onde não há arbusto que não dê flores nem árvore que não dê fruto e onde as almas dos nossos ancestrais assumem a forma de aves multi-coloridas”

A “Navigatio Sancti Brendani”

A Irlanda é um país bilíngue, com uma linguagem e identidade própria e que possui magia no uso da palavra. Para citar alguns escritores que mudaram a sociedade e a fizeram repensar a psicologia da palavra podemos falar de Oscar Wilde, James Joyce e W. Butler Yeats. Para entender escritores como esses, é necessário primeiro entender a história da Irlanda?

Sou freqüentemente convidado para palestrar em simpósios acadêmicos voltados à literatura irlandesa, e ali vejo a importância que se atribui ao contexto histórico de um dado texto de um determinado autor. Mas ouso dizer que só esse contexto histórico não basta: é preciso uma compreensão mais profunda de algo mais sutil, menos racional, algo a que costumo chamar de “A Alma da Irlanda”. Essa alma se apresenta nas obras de Wilde, Yeats, Joyce, Kavanagh – mas também está num balcão de pub, numa session de músicos, no vento que sopra na Colina de Tara, num 99 [sorvete de cone] à beira-mar em Howth e na chuvinha que nos força a procurar abrigo num posto de gasolina nalguma estradinha do interior… Jamais diria que eu conheça a Alma da Irlanda por inteiro – nem mesmo o mais alerta espírito nascido na Irlanda pode ter essa pretensão – mas penso que meu entendimento dessa alma contribui para minha tradução dos saberes da Irlanda, tanto através de seus mitos celtas quanto das rebel songs.

Em algum de seus vídeos, você fez uma breve comparação de Yeats com o poeta português Fernando Pessoa. Onde e como exatamente acha que eles se assemelham em suas literaturas?

Penso que ambos são os bardos (na acepção moderna da palavra inglesa, ou seja, como poetas porta-vozes) de suas culturas. Ambos têm os pés firmemente plantados nas raízes míticas e históricas de suas nações, e apesar disso, ambos olham para o futuro. Ambos têm uma forte identificação com seu local de origem, mas ambos ultrapassam os limites dessa identificação; ambos trataram profundamente do mágico-espiritual naquilo a que se chamava então de ‘ocultismo’, ambos deixaram um legado simbólico em suas obras que só mesmo os mais dedicados estudiosos – e não, não sou um deles! – são capazes de vislumbrar.

Onde e quando o Brasil e a Irlanda se encontram na literatura, filosofia e nas mitologias? E onde elas se mesclam?

Essa é uma excelente questão. Penso que essa comunicação espiritual é primeiro registrada pela jornada mítica de Brendan, o místico irlandês que no século V teria chegado por mar a uma terra de eterno verão, “onde não há tempestades, onde não há arbusto que não dê flores nem árvore que não dê fruto e onde as almas dos nossos ancestrais assumem a forma de aves multi-coloridas”… A “Navigatio Sancti Brendani”, texto medieval irlandês que narra a odisséia de Brendan, era muito popular também no continente, num período em que a Irlanda era um centro de peregrinação espiritual tão influente quanto Compostela. Assim como o grande historiador brasileiro Gustavo Cardoso e o diplomata hiberno-britânico Roger Casement, não acho coincidência que um dos nomes para esse paraíso celta – “Ilha dos Abençoados,” literalmente Hi-Breasil em irlandês antigo – tenha influenciado os navegadores portugueses aquando do descobrimento de nossas terras…

Você recebeu a seguinte assinatura de Angus Mitchell no seu exemplar do livro “Roger Casement in Brazil”: “Claudio, no centro de tudo que é hiberno-brasileiro.” Você tem descendência Irlandesa? O que é ser um hiberno-brasileiro e qual a importância de manter essa ancestralidade viva?

Sou orgulhoso descendente de transmontanos por parte de mãe e aquele “coquetel vira-lata” tipicamente brasileiro por parte de pai – portanto, nem uma gota de sangue irlandês nas veias! Costumo dizer que Portugal é minha mãe, a Irlanda é a amada e a ambas amo igualmente, cada uma a seu modo… A identificação com a cultura e a história da Irlanda acabou por me pôr em contato com diplomatas e personalidades irlandesas no Brasil e na Irlanda, e valeu-me o convite para integrar a ABEI (Associação Brasileira de Estudos Irlandeses) da USP, aonde várias vezes levei meu trabalho, bem como a representar a Irlanda – veja você! – em eventos culturais aqui no Brasil. Sempre faço isso de coração aberto e com muita, muita honra – é uma forma de retribuir esse amor.

Certamente falar de Espiritualidade celta ou druidismo, assuntos os quais você estuda, são apresentados aos seus leitores e ouvintes em seus canais de mídia por etapas, de forma que cada aspecto da grandiosidade dos temas sejam disseminados a fundo. De forma sucinta aqui, você poderia nos apresentar os materiais/livros fundamentais para quem quer iniciar um estudo ou entendimento sobre a espiritualidade celta?

Uma das perguntas mais difíceis de se responder, pelo simples fato de que não há uma fórmula para isso. A questão da espiritualidade celta, por exemplo, a maioria das pessoas que a procura atualmente está interessada em aspectos rituais e/ou mágicos, daí que o grosso da literatura sobre o tema aborde justamente esses aspectos. Mas e o aspecto filosófico? É como abordamos anteriormente: se a denominação em questão é a espiritualidade celta, que atenção vem sendo dada ao conjunto mítico e as crenças que dele brotam? Salta-se da denominação para as práticas de seus seguidores, sem muita atenção ao processo. Isso, claro, sem contar as muitas distorções que são aplicadas – por ignorância ou má intenção – ao que hoje se costuma chamar de ‘espiritualidade celta.’ Para chegar ao ponto em que você menciona na pergunta, foram muitos, muitos anos de pesquisa às escuras – num tempo anterior à internet, não havia como saber de algo assim incomum a não ser pela importação de livros sem a menor idéia de seu conteúdo ou da seriedade de seus autores… e a partir disso, viajei para a Irlanda e a Grã-Bretanha, fui instruído por gente notável como os britânicos Emma Restall-Orr e John Matthews – sempre amparando a pesquisa espiritual com uma profunda atenção às novas – e cada vez mais constantes – descobertas arqueológicas sobre Irlanda celta e medieval… Lamento decepcionar, mas não há fórmula consagrada…


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