Em Conversa • Fernanda Faez

Fernanda Faez atualmente está concluindo seu mestrado em “Irish Dance Studies” na World Irish Dance & Music Academy da University of Limerick (Irlanda), com bolsa de estudos da Mary Duffy Foundation (Reino Unido); é bacharel em dança pela UNICAMP (Brasil) e estudou Dança Movimento Terapia (Centro de Formação Internacional de Dança Terapia – Brasil), e tem título de professora T.C.R.G. pela Comissão de Dança Irlandesa (An Coimisiún le rincí Gaelacha – Irlanda).

No Brasil, fundou a Banana Broadway e o Festival Celta Brasil. Dirige também a Cia Celta Brasil, que estreou no Rock in Rio 2013. Dirigiu o projeto contemplado pelo edital do MinC em 2013, levando o Brasil ao 43ª Campeonato Mundial de Dança Irlandesa, sendo assim o primeiro grupo de um país sul-americano a participar desse evento, que resultou em um documentário. Em 2013, ela participou de um seminário patrocinado pela Fundação Mary Duffy na University of Limerick e foi uma das poucas dançarinas do mundo selecionadas para o programa “Riverdance, the Gathering” do grupo Riverdance. Reuniu e dirigiu a Seleção Brasileira de Dança Irlandesa em 2017, conquistando o 2º e o 5º lugares no Campeonato Mundial de Dança da Irlanda em Dublin. Foi uma das fundadoras e vice-presidente da South American Irish Dance Association (SAIDA), é membro fundadora e da diretoria da Comhaltas Brasil.

Fernanda, como sua conexão com a dança e culturas celta e irlandesa começou?

Eu danço desde criança, fiz muitos tipos de dança, mas no fim, me tornei uma sapateadora. Por me interessar pelo lado cultural, histórico e humano das danças, fui estudar a história do sapateado estado-unidense e encontrei menção à influência Irlandesa.

Era a época em que Riverdance e Lord of the Dance estavam no auge, tive acesso aos vídeos e depois tive a oportunidade de ter um breve contato com esse estilo de dança irlandesa no Brasil através de uma professora chamada Cláudia Gonçalves, porém não me contentei até ir para a Irlanda estudar.

Meu desejo era conhecer o povo que fazia essa dança, entender onde essa dança acontecia, como acontecia, o que levava as pessoas dançarem assim. Em 2003 fui morar na Irlanda e comecei a fazer aulas com Bernadette Chaney Farrell em Dublin. Ela me apresentou todo o universo tradicional da Dança Irlandesa e isso mudou a minha história e o rumo da dança irlandesa feita no Brasil para sempre.

Há quanto tempo organizam o Festival Celta Brasil e como têm sido a experiência ao longo dos anos?

Em 2021 teremos a 19ª edição do Festival Celta Brasil.

O Festival começou como uma Mostra de Dança, na época do dia de São Patrício, em março, mas a partir de 2006 se ampliou, e mudou seu perfil. Esse é um Festival feito com o coração, então ano após ano, procuramos entender o que é mais pertinente, e qual é a melhor forma de contribuir com a cultura naquele momento, e pautados por isso definimos a nossa programação.

Embora nosso foco principal seja a dança irlandesa, ao longo dos anos já tivemos exames oficiais de dança irlandesa, competição tradicional de dança irlandesa (Feis), exposição de figurinos, instrumentos, livros e CDs, palestras, atividades relacionadas à literatura, mitologia, culinária e idioma, workshops e performances com música ao vivo. Nos últimos anos contamos também com a participação da música e da dança escocesa.

O Festival Celta Brasil fez história no cenário mundial quando promoveu a primeira competição tradicional de dança Irlandesa da América do Sul (1ª Open Feis Brasil, em 2013) e quando sediou o primeiro Campeonato Sul Americano de Dança Irlandesa (1º Oireachtas Rince An Meiriceá Theas, em 2017).

No final de 2019, em uma profunda reflexão com a nossa equipe, decidimos que embora tenhamos inaugurado o caminho das competições oficiais de dança Irlandesa na América do Sul, não era nossa vocação seguir nesse caminho. Desde 2020, então, decidimos que o Festival Celta Brasil fomentará a cultura e a arte da forma mais inclusiva e humana possível, valorizando as relações e o respeito às diferenças.

Em 2020 tivemos o desafio da pandemia que nos levou à inesperada e inesquecível experiência do evento online, que expandiu e conectou novos horizontes. Em 2021 seguiremos em casa, remotamente,  e o Festival Celta Brasil mais uma vez será oferecido com muito carinho aos que amam esse universo da arte e da cultura. 

Ano passado, 2020, foi a primeira vez que o evento foi inteiramente online. Quais foram os sentimentos iniciais e quais expectativas foram superadas?

No ano passado, o primeiro pensamento durante a pandemia, foi que não deveríamos realizar a 18ª edição do Festival Celta Brasil naquele momento. Eu tinha a impressão de que aquele deveria ser um tempo para o recolhimento e para o silêncio, e que seria bom fazermos uma pausa.

Pensei em fazer só uma postagem ou algo bem simples, adiando o Festival para 2021 mas por um acaso conversei com uma amiga e companheira de projetos, Mila Maia, uma musicista brasileira que mora em Galway e me animei.

Resolvemos então criar uma edição online do Festival Celta Brasil e o critério para a curadoria das atividades foi: “o que você gostaria de compartilhar?”. Essa foi a pergunta que fiz para alguns colegas e aos poucos a programação foi se enchendo com atividades sensacionais que eram verdadeiros presentes preparados por cada um dos artistas com muito amor.

A princípio, foi desafiador tecnicamente pois não tínhamos experiência nenhuma, mas tivemos muita ajuda de amigos, e por causa da generosidade deles conseguimos realizar o evento. Ao final do evento, minha sensação era de que esse tinha sido o melhor Festival Celta Brasil de todos, o mais feliz, o mais prazeroso – e também o mais longo (durou 10 dias) -, foi um grande sucesso, superou todas as minhas expectativas.

Toda a programação do Festival Celta Brasil 2020 está disponível gratuitamente no canal do Festival no YouTube.

Para essa segunda vez, ainda online, o que esperar do evento?

Neste ano, o evento será mais curto do que o anterior, com uma programação de 04 dias totalmente online. Teremos grandes novidades para esse ano: a principal delas é a temática regional Brasileira e Sul Americana em diálogo com a cultura Celta.

Estamos convocando artistas do Brasil e da América do Sul para mostrarem seus trabalhos de música e dança dentro de duas vertentes distintas: a “Tradicional” e a que estamos chamando de “Identidade”. Acreditamos que trabalhos muito interessantes serão apresentados nesta vitrine.

Nesta 19ª edição  teremos também workshop de dança com Justin Walsh, um dançarino natural de Kerry (Irlanda), ex-integrante do grande show Lord of the Dance e professor convidado na formação em dança da Universidade de Limerick (Irlanda). Justin promete trazer ao Festival Celta Brasil mais do que o repertório de Lord of the Dance: ele oferecerá ao público Sul Americano o estilo de dança Irlandesa vindo de Kerry, ensinado pelo último mestre itinerante de dança (travelling dancing master) da Irlanda Jeremias Molyneaux. Os dancing masters foram figuras centrais na tradição e transmissão da dança Irlandesa. Esse estilo nunca foi ensinado no Brasil e é muito interessante, pois lembra um pouco o nosso samba.

Além disso, teremos, entre outras atividades: 

  • bate-papo ao vivo com Cláudio Crow, relacionando mitologia filosofia e dança Irlandesa;
  • mini-aula de Literatura Irlandesa com Tomislav Correia-Deur;
  • mini-aula de Harpa Irlandesa com Joya Emilie;
  • workshop de canto em gaélico;
  • culinária e música com Gisele Tortorella e Kevin Shortall.

E encerraremos o Festival com um espetáculo que une as danças de Brasil e Irlanda, que integra a minha tese de Mestrado em Irish Dance Studies, pela Universidade de Limerick (Irlanda), com dançarinos da Banana Broadway e da Cia Celta Brasil, dirigido por mim, com trilha de Mila Maia, Oran, Ana Luíza Lira, arte de Mariana Zancheta e edição de Evidence Filmes. Após a apresentação faremos um bate-papo com os artistas.

O que pode nos dizer sobre as pessoas envolvidas nesse universo celta e irlandês?

É difícil generalizar, pessoas são pessoas e elas carregam suas características para os meios que frequentam. Não consigo definir um perfil para esse público do universo celta irlandês. Os perfis parecem ser muitos, podem ser mais místicos, mais práticos, mais cultos, mais fantasiosos, entusiastas, etc etc etc. O que para mim é celta ou irlandês, para o outro pode não ser identificável da mesma forma.

Nessa diversidade dentro do mesmo universo, vamos aprendendo a respeitar o espaço de todos e a entender que existem abordagens diferentes para esse mesmo assunto, que existem interesses diferentes e que cada pessoa vai encontrando seu lugar aos poucos.

O Festival Celta Brasil tem uma abordagem ampla, porém particular, com foco principal na dança, mas acreditamos que essa dança é afetada por todos os outros campos da cultura, e da sociedade, por isso oferecemos atividades tão variadas. O Festival Celta Brasil tem a nossa cara e isso é bom porque o torna um Festival único. O convite que eu faço é que você nos conheça, porque conhecer, no mínimo, alarga a visão. 

Como e onde acessar para participar do Festival?

O evento acontece através das redes sociais do Festival Celta Brasil. No Instagram e Facebook, divulgamos a programação do evento, publicamos os chamamentos para as Mostras, disponibilizamos as inscrições para workshops e destacamos as novidades. 

Alguns workshops acontecem pela plataforma Zoom (as instruções para inscrição estão disponíveis na Bio do perfil do Festival no Instagram). A transmissão da programação é veiculada através do nosso canal do YouTube. 

Esperamos vocês para a 19ª edição do Festival Celta Brasil, de 01 a 04 de julho (quinta a domingo) de 2021! O Festival Celta Brasil é uma realização da Banana Broadway, dirigido por Fernanda Faez e com co-produção de Mara Alves.


Vem ler a conversa que tivemos com Mila Maia: