Dublin é • Lorcan McNamee

Dublin é uma caixa de surpresas,
é uma crueldade, um labirinto sem saída,
uma paisagem feita de seres e esperanças.
Dublin é o sorriso e o pontapé,
é a gaivota, o lixo e a chuva.

Dublin é nossa, e também não é;
agora pertence mais ao mundo
que a nós.
Os meus dois avós vieram cá
e conheceram as suas esposas;
sem esta cidade, eu não existiria,
mas o meu pai a odiava
como alguém odeia a solidão, o medo,
a tristeza.

Dublin é um lugar e uma ideia.
É o esgotamento, a raiva e a
felicidade.
A cidade não é fácil,
mas é rico, podre
e feita de camadas e camadas
de sonhos e decepções.

Dublin é
uma colmeia cheia de
abelhas hiperativas, insetos maniáticos,
pequenos seres sem rumo
nem alvo.

A cidade é uma pessoa;
à deriva, misturada,
tropeçando na escuridão.

É como se a cidade tivesse crescido aqui
sozinha na costa leste,
Uma coisa natural e não construída,
para muita gente uma feiúra, uma aberração,
uma verruga na pele do país.

Irlanda está lá fora,
mas também está aqui dentro,
nesta cidade complexa, vivaz e
cruel.

Dublin é meu, e também não é;
na realidade, não é nada disso;
mas sinto-me bem aqui,
forasteiro, mas em casa.



Lorcan McNamee nasceu em Sligo, Irlanda. Durante anos morou e trabalhou como professor de inglês em outros países – Islândia, Inglaterra e Portugal. Foi quando vivia em Lisboa que aprendeu o Português. Atualmente, é professor de Inglês, Espanhol e Alfabetização, de volta em Sligo. Também é autor: escreveu e publicou dois livros até agora – A Year in Lisbon, em 2017, e Be Do Go Have, em 2019, ambos disponíveis via Kindle. Escreve poesia em inglês e – só recentemente – em português. Tem interesse nos idiomas e dança salsa (mal). Para mais poesia e trabalhos do Lorcan acesse seu site: lorcanmcnamee.com.


[Poema publicado em nossa primeira edição da revista Diáspora “Conexões Brasil & Irlanda,” em Dezembro, 2020.]

Foto em destaque: Glauber Venturini