Memória • Mar Lima

Eu lembro de você, velha eu
a odiar brócolis e mudanças,
a carregar poemas inacabados,
a temer palavras e estranhos.

Eu lembro de você, velha eu
não sabendo nada sobre o mundo
e ainda sem saber
teus inícios, meios e fins.

Lembro que você costumava fingir
que a felicidade era possível com o vazio.
Você sabia que a complexidade da vida era insistente,
mas você percebeu que poderia ser mais simples

Você continua dizendo como mudou,
desde que você conheceu o Liffey,
mas não é capaz de explicar
a sensação de atravessar o oceano.
Apenas lembra sentir-se parte disso.

Congelada pelo frio cortando seu rosto,
teu coração pulsou no rio.
No abraço das águas:
você cresceu como a primavera.

Seu corpo foi tocado pelas tuas estações
e agora és uma semente estrangeira
crescendo em teu solo como um salgueiro.

Você é uma mistura de arroz com alho e cebola com madeira na lareira.
Uma mistura de extroversão e silêncio.
A mágica de uma fruta tropical.
Saudade e seu significado.

Nos encontramos
como se estivéssemos brincando com a eternidade:
você, a Irlanda e eu.

Do outro lado de você era parte de mim.
Agora sou completa:
montanha, amor e poesia.


Mar Lima é paulistana e mora em Dublin desde 2014. Publicou seus primeiros poemas na coletânea “Trinta e dois quilos [Uma antologia Brasil-Irlanda]”, de Urutau, e o livro “sou mar.” Estudou jornalismo, é co-fundadora e curadora da revista Diáspora. Para mais de seus trabalhos: www.soumarlima.wordpress.com

Imagem em destaque por Mar Lima.


[Poema publicado em nossa primeira edição “Conexões Brasil & Irlanda” – Dezembro, 2020.]