Uma Visão da Fazenda Garcia, Salvador, Bahia • Rick Kearns

“Abra os seus braços se quiser ser abraçado” • Rumi, Poemas de Amor

Gente tropical de pele marrom
subindo a ladeira
da Fazenda Garcia de colarinho cor azul do mar
Salvador Bahia
indo de um lado para o outro
num zig zag informal
subindo a ladeira
não há nada de mal

Ė assim que se chega lá

Essa linha reta que sobe a ladeira
que em qualquer mapa pareceria o caminho mais curto.
Mas neste padrão
ancião cruzado
Na hélice para sobreviver
á próxima ladeira
é que se permite
aproveitar
a rota.

E enquanto se sobe
se ouve cumprimentos
e te convidam para entrar
pra um café ou uma cerveja
bem gelada
Ou pra saber como está
o filho da sua madrinha.

Ou pra saber talvez da última fofoca
ou de um caso de amor
ou das saídas noturnas.

Subindo as ruas enladeiradas
pelos viveiros de casas de gesso

de 2, 3, 4 andares
um por cima do outro
as pessoas nas varandas
nas calçadas
nas janelas coloridas
pessoas lindas de peles escuras
jovens meninos e meninas
velhas senhoras
rapazes novos
assistem ao desfile.

Moças, jovens moças
caminhando pra casa
do trabalho nas lojas,
fábricas, das mansões onde cuidam dos filhos dos mais ricos
ou graphic designers, professores,
e contadores também.
Escalando essas ladeiras.

Sérios, olhos diretos
pessoas da cidade grande.
Homens de garagens
equipes de construção, empresários,
parando em pequenos bares, mercearias.
Todos os tipos de trabalhadores – até artistas
Artistas é claro em Salvador
na Fazenda Garcia e em todos os lugares
pinturas de pessoas, animais, visões
em muros por toda a Bahia.
Mais arte por polegada quadrada do que
em qualquer lugar do mundo
e depois há música.
Som poli-texturizado, polirrítmico de guitarras, baterias, buzinas, vozes ritmicas
que vêm de nenhum outro lugar,
O som brasileiro é único.

Com relação com sangue, muito sangue,
da África, Europa e do Novo Mundo também, e
são todas essas coisas, mas
diferente, que chegam a você das
rádios de dentro das casas, dos carros
e dos grupos de rapazes no parque
cantando, meninas na calçada
cantando.

Grupos completos de pessoas nos palcos
nas ruas no carnaval
grupos completos de vizinhos dançarinos, bateristas, acrobatas, tomados
pela música
pelos espiritos.

Fazenda Garcia
assim como toda a cidade de Salvador Bahia tem tudo isso
Música, arte, longos dias
Aparências ásperas que escondem um grande volume de amor
que eu, um visitante bobo e mestiço
tive a sorte selvagem de ver já que casei com a realeza
O tolerado marido de amada e saudosa princesa de fazenda Garcia
e tudo que tive que fazer foi a minha melhor imitação de um adulto são
como todo o amor derramado do céu
e que nos encharcou
na
Fazenda Garcia,
Salvador, Bahia.


Exibição de fotos da Bahia • por Bruna Gosta.


Rick Kearns é um poeta, escritor freelance e músico de Boricua (porto-riquenho) e de herança europeia de Harrisburg, Pensilvânia. Ele foi nomeado Poeta Laureado de Harrisburg em janeiro de 2014. Seus poemas apareceram em mais de 80 jornais, incluindo The Massachusetts Review, The Painted Bride Quarterly, The Patterson Review, Yellow Medicine Review, Letras (revisão literária do Center for Puerto Rican Studies, Hunter College, NY) e Chicago Review. Os poemas de Kearns também são encontrados em dois livros, cinco antologias nacionais, duas antologias internacionais e sete capítulos. Vários de seus poemas foram traduzidos para o espanhol e o português. Ele realizou leituras em todos os Estados Unidos desde 1992, incluindo no Nuyorican Poets’ Café e Capicu. A sua poesia também consta do CD “The Moon Rides a Black Horse”, que alia a sua poesia ao jazz do Quarteto Con Alma (com quem colaborou entre 2010-2014). Para mais de seus trabalhos, acesse o site: www.rickearns.com.


• Tradução por Monica Teles e Amanda Faccioli.

• Capa por Bruna Gosta.

Publicado em nossa primeira edição da revista Diáspora “Conexões Brasil & Irlanda.”