Em Conversa • Mariana Bolfarine

Mariana Bolfarine possui doutorado e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (2015) e foi pesquisadora na Universidade Nacional da Irlanda, Maynooth (2013-2014). Leciona na Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), é pesquisadora da Cátedra de Estudos Irlandeses W.B. Yeats, além de presidente da Associação Brasileira de Estudos Irlandeses e editora-chefe do ABEI Journal. A Dra. Bolfarine é membro da IASIL e é representante do Brasil na bibliografia da Irish University Review. Publicou amplamente sobre Roger Casement e traduziu para o português: Roger Casement no Brasil: Borracha, Amazônia e Mundo Atlântico 1884-1916 (2010) e Diário da Amazônia de Roger Casement (2016). A Dra. Bolfarine também é a autora de Between “Angels and Demons”: Trauma in Fictional Representations of Roger Casement (2018).

Mariana, quando começou sua conexão com a Irlanda e como é/foi?

Minha conexão com a Irlanda começou na Universidade de São Paulo (USP), em 2009, enquanto trabalhava na minha tese de mestrado. Inicialmente, eu estava interessada em relações literárias entre a Irlanda e o Caribe. A Dra. Laura Izarra, minha orientadora, me deu a oportunidade de traduzir para o português Roger Casement no Brasil: Borracha, Amazônia e Mundo Atlântico 1884-1916 (2010), do historiador Angus Mitchell, que originalmente era um catálogo de uma exposição realizada em Manaus, durante uma das primeiras conferências sobre Roger Casement. À época, eu não sabia quase nada sobre Roger Casement, mas ao começar a traduzi-lo, fiquei impressionada com o material. Considero essa experiência um divisor de águas, não apenas na minha carreira, mas também como indivíduo. Um mundo totalmente novo se abriu para mim em termos da relevância histórica, antropológica e humanista do material que Casement nos deixara. Acredito que este pequeno livro, Roger Casement no Brasil, é um ótimo material de referência, pois oferece uma introdução à vida de Roger Casement, levando primeiro em consideração os vinte anos que ele passou no Congo, depois sua investigação na Amazônia e, finalmente, sua transformação em um revolucionário irlandês. No entanto, como está implícito no título, enfatiza o tempo que a Casement passou no Brasil, como cônsul britânico em Santos, Belém do Pará e cônsul-geral no Rio de Janeiro, bem como a missão Putumayo, por meio da seleção cuidadosa de excertos dos escritos de Casement realizada por Mitchell. Em 2010, Angus Mitchell veio ao Brasil para o V Simpósio de Estudos Irlandeses na América do Sul e Laura Izarra sugeriu a tradução dopara o português do The Amazon Journal of Roger Casement/ Diário da Amazônia de Roger Casement, publicado por Mitchell em 1997. Foi quando decidi, junto com Laura, que continuaria pesquisando sobre Roger Casement para o meu doutorado.

Você organizou e traduziu para o português a primeira edição do The Amazon Journal of Roger Casement, editado por Angus Mitchell. Quem foi Roger Casement e por que você se interessou pelos trabalhos dele?

Roger David Casement nasceu em Sandycove, Dublin, 1864. Foi um cônsul britânico que, mais tarde, tornou-se um revolucionário irlandês. A morte de seus pais fez com que aos 16 anos deixasse a Irlanda do Norte para o Liverpool. Lá, seu tio Edward Bannister o posicionou na Companhia de Navegação Elder Dempster, seu passaporte para a África. Casement logo se tornou um oficial no Estado Livre do Congo, governado pelo monarca belga Leopoldo II. Tendo sido notado pelos funcionários da Coroa, Casement foi mais tarde nomeado cônsul britânico na África portuguesa em Lourenço Marques. Seu posto seguinte foi no Brasil (1906-1913). Em vida, Casement foi aclamado pela autoria de dois documentos publicados como Blue Books, livros oficiais britânicos: o Relatório do Congo, escrito em 1903; e o Relatório Putumayo, em 1911. Ambos contêm descrições gráficas de atrocidades cometidas contra os nativos dessas regiões durante o boom do ciclo da borracha no início do século XX. Por essas investigações, Casement foi nomeado CMG (Companheiro de São Miguel e São Jorge) e, mais tarde, Cavalheiro. Como consequência, Casement se voltou contra o Império Britânico e se juntou à causa da independência da Irlanda. Procurou apoio alemão contra a Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial e, em 21 de abril de 1916, foi preso após retornar à Irlanda em um submarino U19 para participar do Levante da Páscoa. Em meio ao julgamento de Casement por alta traição na Inglaterra, os Diários Negros, de conteúdo homossexual, foram encontrados pelo Ministério do Interior em seus aposentos em Londres, minando o pedido de clemência de intelectuais como Arthur Conan Doyle, George Bernard Shaw e Mark Twain. Seus apoiadores acreditavam que, devido as suas ações humanitárias no Congo e no Putumayo, ele merecia um indulto, que foi negado. Casement foi enforcado aos 3 de agosto de 1916.

Creio que a segunda parte da resposta a esta pergunta foi abordada acima, mas sim, é de fato uma grande honra ter participado desse projeto e ter contribuído para fornecer ao Brasil um trabalho de extrema importância que traz à luz um dos capítulos mais violentos da história transatlântica sobre o ciclo da borracha que, de outra forma, teria sido esquecido. Geralmente, leva algum tempo, até anos, para que o impacto do trabalho acadêmico seja medido adequadamente e, no caso do Amazon Journal, estamos colhendo os frutos dessa pesquisa por meio de citações, referências em artigos e capítulos de livros. Há também um documentário cujo roteiro foi baseado no Diário da AmazôniaSegredos do Putumayo, do cineasta amazônico Aurélio Michilles – a ser lançado em 2020, o que evidencia a importância da pesquisa realizada nas universidades públicas brasileiras.

Você levou 6 anos para traduzir o diário dele, foi uma jornada intensa e longa para você. A parte mais difícil foi traduzir expressões irlandesas?

Sim, demorou um pouco. Você vê, no nível universitário, especialmente nas universidades públicas brasileiras, esses processos levam tempo. A tradução foi realizada por três tradutoras: Dra. Mail Azevedo Marques, Dra. Maria Rita Drumond Viana e eu, o que foi ótimo, porque partilhamos o trabalho. Posteriormente, eu, como coordenadora da tradução, juntamente com Laura Izarra, reli e revi o documento várias vezes, a fim de padronizar os diferentes estilos e escolhas de palavras feitos pelas três tradutoras. Isso levou um tempo considerável, principalmente porque todas nós tínhamos outras ocupações; esse trabalho não tem fins lucrativos. Na época eu estava cursando o doutorado na Universidade de São Paulo com bolsa da FAPESP, portanto, além da tradução, eu tinha meu próprio projeto de pesquisa para trabalhar – também sobre Casement – conferências para participar e assim por diante. Além disso, a publicação de um livro pela EDUSP, editora da USP, um processo que leva tampo. O material foi primeiramente submetido à análise por um conselho de especialistas e, após sua aprovação, o material foi, mais uma vez, cuidadosamente revisado, as fotos foram selecionadas e também a capa.

Quanto às histórias em si, você foi capaz de trabalhar na tradução com olhar separado, como, não deixar as emoções tocarem seu trabalho ou os seus sentimentos sobre os sentimentos de Casement também fazem parte desta tradução?

Acredito que traduzir a escrita da viagem permite participar da jornada feita pelo viajante, e o veículo são as palavras na página. Além disso, o tradutor de relatos de viagens atua como uma ponte entre (pelo menos) três culturas diferentes, a do viajante, a do seu destino e a do tradutor. É preciso entrar na mente do escritor para compreender seus pensamentos, sentimentos e perspectivas. Visto que as atrocidades descritas por Casement foram cometidas contra os nativos da Amazônia, como uma brasileira, eu me senti mais próxima deles. Em um nível mais amplo, fui capaz de me conectar com esses povos como seres humanos, explorados por um “outro”, os proprietários e funcionários da Companhia Peruana da Amazônia que consideravam os povos indígenas como menos humanos do que eles. Acho particularmente impressionantes as descrições detalhadas que Casement faz de instrumentos de tortura como o cepo – estruturas de madeira em que os índios agonizavam, as marcas de açoite com chicote de couro de anta, o peso pesado das tulas – cargas de borracha que os indígenas carregavam na testa, a fome, o tratamento das mulheres como escravas sexuais, o sistema de escravidão por dívida e assim por diante. Certamente, foi necessário um olhar sensível para enxergar seres os humanos por detrás daqueles corpos rajados por cicatrizes e ter a coragem de registrar e publicar esse relato. Havia também os barbadianos, súditos britânicos que atuavam como superintendentes dos coletores de borracha indígenas e atuavam tanto como perpetradores quanto como vítimas. Muitos desses barbadianos, como John Brown, prestaram depoimentos que se tornaram evidências dos crimes. Os dois relatórios, o do Congo e o da Amazônia, contêm fotos, algumas tiradas por missionários e outros viajantes, como o inglês Thomas Wiffen, e muitas do próprio Casement acompanhadas por descrições, o que torna a experiência de ler o Diário ainda mais vívida. Por esses motivos, era difícil me “desligar” da tradução, pois essas imagens e descrições permaneceriam comigo por dias.

Michael Higgins, o Presidente da Irlanda, foi ao Brasil para o lançamento do livro e escreveu o prefácio. Casement era um elo entre a Irlanda e o Brasil? Como é a aceitação dele e do povo irlandês com as obras e a vida de Casement?

Roger Casement é certamente um elo muito importante entre a Irlanda e o Brasil. Acredito que o Presidente Michael Higgins é um homem generoso e muito acessível. Ele não estava no Brasil para o lançamento, mas esteve aqui para um importante evento acadêmico que havia ocorrido algum tempo antes. No entanto, ele foi extremamente importante para unir as experiências brasileiras e irlandesas de Roger Casement. Não apenas isso, mas por meio da luta de Casement pela causa dos indígenas do Putumayo, o presidente trouxe à tona um aspecto importante da cultura e da sociedade irlandesa: a história de seu envolvimento com questões de direitos humanos e causas humanitárias, que pode ser visto ainda hoje, em 2020, em meio à pandemia de coronavírus. Higgins não apenas teve colaborou conosco, mas também foi responsável por trazer à tona a memória de Roger Casement durante as comemorações do centenário de sua morte, ocorrida em 2016, algo até então sem precedentes. Ainda acho que a importância de Casement além da arma de Howth e o papel que ele desempenhou na Páscoa de 1916 não são muito compreendidos, nem na Irlanda, no Brasil nem na Grã-Bretanha. Há também a disputa ainda em andamento sobre os Diários Negros, que acaba ofuscando suas ações humanitárias, portanto ainda há muito trabalho a ser feito a esse respeito.

Qual é o significado do trabalho e da história de Casement para a literatura brasileira?

Na literatura brasileira, a vida de Roger Casement ainda não foi muito explorada, com exceção da peça The Two Deaths of Roger Casement/ As duas mortes de Roger Casement (2016), produzida pela companhia de teatro Cia Ludens e dirigida por Domingos Nunes, e o filme Segredos do Putumayo / Secrets of the Putumayo, do cineasta amazônico Aurélio Michilles, a ser lançado este ano.

Estudar Roger Casement é como abrir uma janela para outro mundo e em épocas distantes ou o “fantasma de Casement” ainda está vivo na Amazônia?

Certamente. Na minha dissertação, cito Rebecca Solnit, que compara Casement a uma janela. De fato, a palavra “casement” significa a um tipo de janela, mas a janela de “Casement” é aquela através da qual somos capazes de enxergar coisas que até então estavam ocultas aos olhos do público. Em uma carta a Cunningham Graham (1903), Conrad escreveu: “Ele [Casement] podia lhe contar coisas! Coisas que tentei esquecer, coisas que nunca soube”. Em seus escritos, Casement traz à tona o modo de operação cruel que estava por trás dos pneus de um Ford Modelo T, primeiro automóvel produzido em massa e que necessitava do látex para a produção dos pneus. Foi o sangue dos índios que tornou a modernidade possível, no entanto, ninguém sabia disso na época e, mesmo hoje, poucas pessoas sabem. Na minha opinião, a melhor maneira de enxergar através dos olhos de Casement é ler seus diários e relatórios. A maneira íntima e naturalista em que ele escreve nos faz sentir como se fossem seus companheiros de viagem ao longo do Putumayo, uma vez descrito por Walt Hardenburg como “o paraíso do diabo.”

Quanto à segunda parte da pergunta, a concepção de Casement como fantasma que continua assombrando as relações anglo-irlandesas vem do poema “O Fantasma de Roger Casement”, do célebre escritor irlandês W.B. Yeats, com o refrão “É o fantasma de Casement batendo em nossa porta”. Acredito que isso seja verdade hoje, mas não precisamente em termos das relações entre a Irlanda e a Grã-Bretanha, mas como uma mensagem para o mundo todo, um aviso de que, se continuarmos a destruir o ambiente natural e a explorar outros, haverá graves consequências para a espécie humana.

“MAS o que foi esse barulho agora?
O que temos em nosso portal?
Nunca cruzou os mares, pois
John Bull é amigo do mar;
Mas o velho mar não é o mesmo
Nem é esta a mesma praia.
Que foi esse rugido de escárnio,
Que ruge no rugido do mar?
É o fantasma de Casement
Batendo em nossa porta.

– O Fantasma de Roger Casement.

Leia aqui.

Você também escreveu sobre Roger Casement em sua tese de doutorado Between Angels and Demons, você teve algum trauma aprendendo sobre a vida dele?

Minha tese de doutorado, Entre “Anjos e Demônios”: Trauma e Representações Ficcionais de Roger Casement, publicada como livro pela Humanitas / FAPESP em 2018, apresenta uma discussão geral sobre obras da literatura que lidam com essa figura controversa sob a perspectiva da teoria do trauma cultural. Eu me concentro em quatro romances: The Lost World (1912), de Arthur Conan Doyle, At Swim, Two Boys (2001), de Jamie O’Neill (2001), The Dream of the Celt  (2010), de Mario Vargas Llosa, The Fox’s Walk (2001), de Annabel Davis-Goff e duas peças de rádio: The Dreaming of Roger Casement (2012), de Patrick Mason e Cries from Casement as his Bones are Brought to Dublin (1974), de David Rudkin.

Eu não diria que fiquei “traumatizada” pesquisando sobre Casement e as atrocidades, mas diria que fiquei profundamente impactada e, ao mesmo tempo, sinto-me privilegiada por ter empreendido essa jornada que, felizmente, ainda não acabou. No momento, estou traduzindo The Eyes of Another Race de Séamas Ó Síocháin: relatório do Congo de Roger Casement e seu diário de 1903.

Escritores como Mario Vargas Llosa, Arthur Conan Doyle, Jamie O’Neil, Patrick Mason, W.B. Yeats e até James Joyce mencionaram e escreveram sobre Casement. Com base em seus estudos, qual você acha que era a relação entre eles, se houvesse um terreno comum e razões para manter a vida e a obra de Casement vivas?

Suponho que o que esses trabalhos têm em comum é que todos apresentam relatos diferentes sobre a mesma figura, sob diversas perspectivas históricas. Isso pode ser visto, por exemplo, no retrato heroico de Casement como Lord Roxton por Conan Doyle, ou Casement com medos e dúvidas como qualquer ser humano no romance de Vargas Llosa, ou mesmo como uma alegoria do conflito separatista na Irlanda do Norte na peça de Rudkin Cries from Casement as his Bones are Brought to Dubli. Há também outro romance importante que trata de Roger Casement em Putumayo, chamado La Vorágine, traduzido como The Vortex, do escritor colombiano José Eustasio Rivera (1924), além de trabalhos sobre Casement no Congo, como King Leopold’s Soliloquy (1905), de Mark Twain, e o mais conhecido Heart of Darkness (1902), de Joseph Conrad. Obviamente, não podemos esquecer de mencionar os poemas de W.B Yeats “Roger Casement” e “The Ghost of Roger Casement”, ambos publicados em 1936.

Eu acho que a literatura, especialmente a literatura que lida com algum tipo de trauma, como é o caso de Casement, é escrita para que esses acontecimentos não caiam no esquecimento. Como monumentos, a literatura mantém viva a memória.

Antes de Casement escrever em seus diários sobre a escravidão nos tempos da borracha na Amazônia, o escritor brasileiro Euclides da Cunha havia escrito sobre o mesmo assunto. Parece que uma das atribuições da literatura é apontar situações para o mundo. Quando o papel da literatura termina, o que acontece a seguir?

Sim, de fato, o que Euclides da Cunha descreve em À Margem da História uma floresta amazônica não mais como um espaço idílico, intocado e virgem, mas como um inferno verde, um lugar de morte e destruição. Ele define o tipo de relação de trabalho que ocorreu durante o boom da borracha no início do século XX como “escravidão por dívida,” um sistema no qual o trabalhador é escravizado por dever ao empregador a comida que compra na loja local, que é muito cara, e o mesmo ocorre com as roupas, com o aluguel, com cigarros… E, infelizmente, isso é algo que ocorre até hoje. Acredito que a literatura faz com que eventos traumáticos não caiam no esquecimento e, por isso, ela jamais morrerá. Ela pode até assumir diferentes gêneros e formatos e suportes, mas os seres humanos sempre terão a necessidade de se expressar; de dizer o que não foi dito.

Sobre você, como foi a experiência de estudar na Irlanda?

Eu já havia estado na Irlanda e na Irlanda do Norte para participar de conferências e realizar pesquisas em bibliotecas. No entanto, ter a experiência de morar no país sobre o qual você estuda é extremamente importante. Como parte do meu doutorado, por meio da bolsa FAPESP pude ficar um ano no exterior. Decidi ir para a National University of Ireland, em Maynooth, onde fui co-orientada pelo Dr. Luke Gibbons. Em Maynooth, conheci o antropólogo Dr. Séamas Ó Síocháin, que me ajudou consideravelmente, e em Limerick havia o Dr. Angus Mitchell. Tive o prazer de assistir a uma conferência em Tralee, local em que Casement desembarcou do submarino U-19 e onde ele passou seus últimos dias na Páscoa de 1916. Além disso, tive acesso à Biblioteca Nacional da Irlanda, onde consultei documentos importantes, incluindo o poema “O sonho do celta”, escrito por Casement, que transcrevi no meu livro. Viver na Irlanda foi essencial para aprender mais sobre seu povo e sua cultura; especialmente poque meu filho, que tinha oito anos na época, frequentou a Boys’ National School em Maynooth e, ao final de um ano, aprendeu não apenas inglês, mas também gaélico.

Você também faz parte do ABEI Journal e da Irish University Review. Em quais projetos você trabalha mais relacionados à literatura irlandesa e outras conexões?

A Associação Brasileira de Estudos Irlandeses foi fundada por um pequeno grupo de pessoas que tinham em comum o amor pela literatura e cultura irlandesas. Entre seus fundadores estão a Dra. Munira H. Mutran, a falecida Maria Helena Koschitz, a Dra. Laura Izarra, coordenadora da Cátedra de Estudos Irlandeses W.B. Yeats, e Dra. Rosalie Rahal Haddad, patrona da ABEI / Haddad Fellowship. Atualmente, sou presidente da ABEI, o que é um grande desafio, e editora-chefe do ABEI Journal, que publica artigos acadêmicos, resenhas de livros, poemas, curta ficção e entrevistas de brasileiros, além de acadêmicos da Irlanda e de muitos outros países de estudos irlandeses. O ano de 2019 marcou o trigésimo aniversário da ABEI, comemorado por meio do XIV Simpósio de Estudos Irlandeses na América do Sul, bem como de uma edição comemorativa do ABEI Journal, lançada este ano.

Também sou membro da IASIL (Associação Internacional para o Estudo de Literaturas Irlandesas) há muitos anos e tive o prazer de participar de muitas conferências organizadas por eles. A Irish University Review é uma renomada revista de estudos irlandeses que publica a “IASIL Bibliography”, uma compilação anual de trabalhos sobre estudos irlandeses de todo o mundo, e atualmente sou a representante do Brasil.

O que a literatura brasileira tem a aprender com a literatura irlandesa? O que a literatura irlandesa tem a aprender com a literatura brasileira?

A literatura Irlandesa é relativamente conhecida no Brasil, principalmente via James Joyce, haja vista a comemoração do Bloomsday que se iniciou com a Profa. Munira Mutran e o poeta concretista Haroldo de Campos e que continua atraindo os fãs da obra Ulysses. Existem estudos que compraram a obra de Joyce ao consagrado João Guimarães Rosa, principalmente em termos de estilo. A literatura brasileira é muito rica, mas infelizmente não é muito conhecida internacionalmente e uma das razões é a barreira linguística e a pouca quantidade de obras traduzidas do português para o inglês, o que faz com que escritores como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarisse Lispector, entre outros, não cheguem às livrarias. Já no Brasil, muitos entram em contato com a literatura irlandesa no ambiente universitário por meio de cursos de extensão. Desde 1989, quando a ABEI foi fundada, e desde 2009, quando a Cátedra de Estudos Irlandeses W.B. Yeats foi criada na Universidade de São Paulo, houve um intercâmbio literário e cultural através da mobilidade de acadêmicos, pesquisadores e estudantes de pós-graduação entre os dois países. Tanto a ABEI quanto a Cátedra organizam um Simpósio anual de estudos irlandeses na América do Sul, para o qual palestrantes da Europa, América do Sul e do Norte e outros são convidados a dar palestras e ministrar cursos de curta duração como bolsistas visitantes em história, ficção, poesia, teatro , estudos de filmes e similares. Inúmeros escritores de ficção irlandeses de renome chegaram à USP, como John Banville, Cólm Tóbín, Mary O’Donnell, Eilis Ní Dhuibhne, entre outros. Tivemos o caso de poetas como Paul Durcan e Moya Canon, que foram influenciados por suas viagens e escreveram sobre sua experiência no Brasil.

Se você pudesse enviar uma carta para Casement, o que escreveria para ele?

Essa é uma pergunta interessante, pois pesquiso a Casement há dez anos e, de certa forma, sinto como se o conhecesse. Às vezes me pego imaginando o que Casement pensaria se ele estivesse vivo hoje, em meio a uma epidemia de coronavírus, que está pondo em xeque toda a ideia de conexão e globalização, que já estava em pleno andamento no tempo dele. Ele definitivamente não estaria feliz.

Mas se eu escrevesse uma carta para Casement, em primeiro lugar, agradeceria por seus escritos, pelo legado que ele deixou para trás, e por ser uma janela que nos permite enxergar o que ele viu: atrocidades, exploração, subjugação de seres humanos por outros seres humanos.

Em segundo lugar, eu também agradeceria a Casement por nos dar seu exemplo. Ofereceu água a uma mulher Andoque doente de sua própria garrafa, ajudou-a a andar e a cobriu com suas roupas. Cuidou de feridas de homens, mulheres e crianças. Colocou sua própria vida e carreira em risco por lutar pela causa do Congo, do Putumayo e da Irlanda.

Finalmente, eu o informaria que ele previu as consequências drásticas da monocultura e da exploração natural de recursos naturais, como foi o caso da borracha no século XX.

Atualmente, no Brasil, o “ouro negro”, a borracha, se transformou em “ouro verde”, a soja que, juntamente com a pecuária, tem resultado no desmatamento sem precedentes da floresta amazônica, além da morte de outros ecossistemas, como o “cerrado” no centro-oeste.

No entanto, eu diria a ele que, apesar de todo o caos em que estamos, no início do século XXI, a jornada de Casement ainda nos traz esperança, a esperança dos direitos humanos, a esperança de fazer conexões transatlânticas e a esperança de que as pessoas serão capazes de compreender que toda vida importa.