Músicos brasileiros nos pubs irlandeses

Músicos Guto Piazza e Luana Matos conversam com a gente sobre a cena de pubs Irlandeses e a trajetória de um músico estrangeiro nessa tradicional cena irlandesa.

A Irlanda, tão famosa pelos Cliffs e paisagens verdes, também atrai inúmeros turistas através da famosa vida noturna nos pubs. Os pubs são um dos principais locais de socialização, sendo a música uma parte fundamental da cultura, muitos desses locais contam com música ao vivo.

Destino popular para festas de aniversário e despedidas de solteiro, os turistas sabem que ambiente esperar ao passear pelas ruas da área de Temple Bar, por exemplo. O ambiente interno, geralmente na penumbra, com cervejas na torneira (beer on tap), tem um estilo musical característico, que o público quer ouvir e cantar junto.

Nas últimas décadas a Irlanda viu um aumento no fluxo de imigrantes, os estrangeiros trouxeram muito de sua cultura para o país e hoje é possível encontrar festas brasileiras, polonesas, mexicanas e muito mais. No entanto, muitos artistas não estão limitados à sua própria comunidade e têm interesse em ingressar na cena dos pubs irlandeses.

A cultura irlandesa é muito rica, tem uma história profunda e as pessoas são acolhedoras, parecem gostar de manter as tradições e transmiti-las de geração em geração. Essa transmissão de cultura acontece muito dentro dos pubs que possuem um público misto, muitas vezes o público de gerações diferentes em um mesmo ambiente.

Como diz o cantor Guto Piazza: “Nos pubs eles se reúnem para assistir esportes, para comemorar datas festivas, jogar quiz, cantar e até chorar a morte de entes queridos. Tendo contato com todas estas situações acontecendo ali no mesmo ambiente, com pessoas de diferentes idades, te dá um panorama da cultura e comportamento do povo irlandês”.

O espaço é receptivo, mas existe um interesse em manter o estilo, muitos estabelecimentos reforçam a importância disso, como explica a cantora Luana Matos que diz que em determinados locais é preciso que o artista se adapte e mantenha o estilo para fazer parte desse cenário.

No entanto, ambos cantores explicam que é possível inserir sua personalidade e estilo pessoal dentro da apresentação, enquanto mantendo o foco na música que o público foi lá para assistir, sendo assim todas as apresentações têm uma certa individualidade.  

Luana e Guto são músicos brasileiros, com projetos tanto focados no público brasileiro na Irlanda como outros para o público geral, seja em eventos particulares ou nos pubs.

É interessante observar essa mesclagem cultural que acontece quando um artista se muda para um novo país, pois eles não só aprendem a nova cultura como um expectador mas também passam a disseminá-la.

É para nos fazer refletir sobre as possibilidades que a arte e a globalização nos trazem, que os dois compartilharam conosco sua visão de quem vem de fora mas vê de dentro desta cena.

A Música e os Músicos

Ainda que a música ao vivo seja o ponto mais característico do ambiente, é importante ressaltar que não é em si a música folk/celta, aquela que dá ritmo à dança Irish, que chama mais a atenção. Há casas específicas para assistir esses shows, mas na maioria dos pubs não são essas músicas o foco do repertório. O estilo mais tocado, descrevendo de forma simplista e generalizada, é o pop rock.

Os músicos disseram que há algumas músicas de origem Irlandesa que uma hora ou outra são um must-have na playlist, como “Whiskey in the Jar” e “Galway Girl”, mas que dividem espaço com bandas clássicas conhecidas mundialmente como Beatles, The Strokes, David Bowie, Green Day e outros.

Se você fizer o famoso pub-crawl, um trajeto passando por diversos pubs seguidos em uma noite, você provavelmente ouvirá diversas vezes diferentes versões de Wonderwall or Valerie.

A mídia, a indústria e a globalização possibilitaram a disseminação de diversas formas de arte, principalmente a música, alguns estilos se tornaram tão populares que não só influenciaram mas se fundiram com a música original do país, no caso da Irlanda, ganhando tanto espaço que é considerado parte fundamental da cena turística do país.

De acordo com eles, o público não faz muita distinção a interação com músicos de diferentes nacionalidades. As vezes acontece de ter curiosidade sobre a cultura brasileira e até apreciar uma ou outra música, mas eles disseram que é importante manter o estilo local para que o público realmente aprecie a performance.

Guto Piazza. Foto cedida por Tributo Rock Irlanda.

“Creio que o tipo de interação dos clientes de um pub com o músico estrangeiro não tem uma dinâmica diferente de quando o músico é irlandês. Talvez nesse ponto a interação dependa muito mais do músico no caso, do domínio da língua, do repertório que é mais popular entre o público daqui, ou até mesmo do quanto esse músico conhece da cultura do lugar, do universo deles, e como ele aplica isso no seu show.” Guto Piazza.

Mas se o estilo é mundial e há cantores por todo lugar, o que faz o pub irlandês tão especial?

Bom, aqui entra um pouco de história, observação e especulação, mas pub vem de Public House (casa pública) que por séculos é um ponto de encontro e socialização para comunidade.

Onde há público, há arte. A música e diversas outras formas de cultura, como a literatura, ou o Scéal (a arte de contar histórias), entraram nesses espaços fazendo deles foco importante na disseminação cultural. Possivelmente até por conta do tempo constantemente chuvoso da Irlanda que dificulta a socialização em espaços abertos, como parques, ou nos churrascos que são tão famosos em outras culturas.

“Vejo os irlandeses como ótimos contadores de histórias. Os músicos daqui sempre emendam as músicas com histórias, curiosidades e piadas entre elas. E ali podem entrar personagens do cotidiano deles, do que se fala nas músicas, de “piadas internas” sobre regiões, etc.” diz Guto Piazza.

Como vemos, o pub vai além de um local para beber e ouvir música, o ambiente descontraído conta com muitas características da história local, isso até tema de decoração de muitos deles. E já que a tanta informação é disseminada de forma leve e natural é comum a interação de públicos diferentes e inclusive de idades diferentes. Em outros lugares do mundo, como no Brasil por exemplo, o público é mais segregado, comentou Guto.

Através dessa interação, tanto os músicos como a audiência acabam aprendendo mais sobre os costumes do local, trocando informações e conhecendo a cultura de uma forma diferenciada de outros lugares.

Luana Matos. Foto: Laine Alcantara.

A Luana nos disse que ao longo dos anos aprendeu tanto que hoje ela consegue “ler” o público e escolher a melhor forma de interagir, prender a atenção das pessoas e oferecer um entretenimento de qualidade, mas conta que passou um sufoco pois quando foi convidada para sua primeira apresentação para um público não-brasileiro, ela só teve duas semanas para se preparar e aprender todas as músicas novas.

A influência externa e o futuro

Época de pandemia à parte, o que vemos no geral é o número de pessoas morando no exterior aumentar. Cada vez mais pessoas querem construir uma vida no exterior, muitas vezes em lugares que possibilitam viver exercendo a profissão que amam.

O número de músicos estrangeiros nesta cena só deve aumentar e o impacto disso é cada vez mais visível. É importante que os artistas respeitem a cultura e tradição do país para que isso não desapareça no futuro, mas como os cantores disseram, é possível acrescentar, trazer o estilo próprio e até uma novidade ou outra para uma gig enquanto contribuindo para que a cena se fortaleça.

Dessa forma, a música ao vivo nos pubs só tem a ganhar quando o palco é tomado por artistas estrangeiros assim como artistas locais. No geral, o público Irlandês parece compreender isso.

A Luana contou que tinha uma gig de músicas brasileiras em Newry para um público raramente brasileiro, eles aceitavam a novidade muito bem, até porque nos outros dias também apreciavam um entretenimento mais local. Isso demonstra que eles entendem bem que é possível abrir espaço para o novo sem ter que eliminar o tradicional.

Além do mais, poucas pessoas desse público teriam a chance de conhecer a cultura brasileira se essa só permanecesse no Brasil. Como há pubs Irlandeses no Brasil e em diversos lugares do mundo carregando a cultura Irlandesa para quem não consegue visitar o país.

Essa mistura, essa diáspora, agrega muito à cultura de países que abrem espaço para isso. A Irlanda parece encontrar a medida ideal entre manter a cultura local enquanto agrega a cultura externa, então é possível enxergar um futuro com uma cena cultural riquíssima onde músicos, artistas e público só têm a ganhar.

• Acompanhe os trabalhos dos músicos Guto Piazza & Luana Matos nas redes sociais.

• Imagem da Capa por Hugo Vasconcelos.


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