Em Conversa • Daniel Nash

Daniel Nash e seu irmão Patrick Nash, de Waterford, na Irlanda, formam a banda de blues-rock The Nash Brothers, movida por guitarras. Os tons celtas sutis encontrados na música dos irmãos Nash vêm da rica cultura artística da Irlanda e da Escócia, onde nasceram e foram criados, tendo iniciado essa colaboração ainda na infância.

A banda contou com participações irlandesas, como o baterista Darren Jennings e o baixista Fintan McKahey, ambos do oeste de Cork, além da equipe de produção brasileira de Gabriel Pinheiro e Luiz Tornaghi, vencedores do Grammy Latino.

O primeiro EP, “The Nash Brothers”, foi gravado no verão de 2015 no Brasil, onde Daniel, que havia ido apenas para visitar, acabou decidindo ficar. Os Nash Brothers fizeram shows, tiveram aparições na televisão e na rádio, além de terem participado do Miss Universo 2015.

Em nossa conversa, ele fala sobre The Nash Brothers, sua história com o Brasil, e como a música brasileira o inspirou para seu próximo projeto que será lançado em breve. Junte-se a nós!


“Bem, eu vi rostos na montanha,
Um velho sábio embaralhando cartas, fazendo apostas.
Contando seus dias perdidos.”

Daniel, de onde você é originalmente?

Sou de Waterford, mas moro em Cork.

Eu posso ver que está usando um pulôver, então, definitivamente, você está na Irlanda agora, certo?

Isso, estou na Irlanda agora. Voltei do Brasil depois do primeiro confinamento e já estou com saudades do verão brasileiro!

Qual é a sua história com o Brasil? O que você fazia lá?

Nos últimos sete anos, morei entre Cork (Irlanda) e Brasil. Meu pai mora no Brasil há 10 anos, 8 no Rio e os últimos 2 na Bahia. Quando fui visitá-lo pela primeira vez, em 2013, me apaixonei imediatamente pelo Brasil, pela energia, pela vibração das pessoas, pelo clima e pelas mangas incríveis!

Meu irmão e eu (The Nash Brothers) tocamos em diferentes seções rítmicas (com bateristas e baixistas) no Brasil, mas sempre voltando às nossas raízes e casa na Irlanda. Em 2015 ou 2016, tive que deixar o inverno irlandês e fui ao Rio de Janeiro passar um mês de férias para fazer alguns shows, tentar surfar e pegar um pouco de vitamina D. Acabei ficando três anos lá, onde encontrei minha namorada, atual esposa. Meu irmão encontrou um amor lá também.

Não foi muito difícil arrumar trabalho, pois trabalhei em uma escola inglesa e fiz shows em bares do Rio, Lapa, Santa Tereza etc. Mas conseguir os documentos, como o CPF [espécie de PPS para irlandês], foi difícil; sem esse número, eu não conseguiria abrir uma conta bancária.

Você já visitou muitos lugares no Brasil? Qual foi o seu favorito?

Tive a sorte de visitar lugares incríveis no Brasil fazendo shows. Já tocamos em Floripa, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além do Rio, que é minha segunda casa, adorei especialmente Minas e o Sul da Bahia.

Que lugar da Irlanda você recomenda que os brasileiros visitem?

Provavelmente, estaria inclinado para a costa sudoeste: Galway, Clare Kerry e Cork. A paisagem é maravilhosa e relaxante com muitas colinas e praias, também há muitos castelos e ruínas que datam do século XVII. A oeste de Cork, onde moro, tem alguns locais de música incríveis onde vamos organizar shows quando o mundo começar a voltar ao normal. Confira: Connolly’s of Leap. O espírito das pessoas do Ocidente, eu acho, é bem aberto e sempre pronto para a festa, como os brasileiros.

“Tire seu chapéu-coco, me dê um minuto para ler o mapa, preciso de um álibi para navegar os 7 mares.”

Conte-nos sobre os Nash Brothers.

Já se passaram dez anos desde que criamos The Nash Brothers. Nosso primeiro álbum, “Faces in the Mountain”, e nosso EP de estreia, foram lançados no Rio em 2015. Sou compositor e guitarrista, meu irmão é o vocalista; ele é ótimo, embora às vezes seja difícil! [risos] Mas digo isso com amor de irmão, claro!

Dizem que suas letras lembram as canções de Tom Waits e Jim Morrison. São baseadas em histórias reais?

Acho que se baseiam na realidade e em diferentes histórias que ouvi ou li, também coisas que aconteceram em minha vida. Em geral, tendo a tentar usar metáforas, imagens e criar personagens dentro das histórias, acho que ajuda a me afastar das canções, embora todos os personagens sejam geralmente uma extensão de minhas características. Caras como Tom e Jim fazem o ouvinte viajar com suas histórias, você pode sentir como se fizesse parte do cenário da música.

Como a música brasileira te inspirou?

A língua portuguesa toca nosso coração de uma forma que, às vezes, sentimos até vontade de chorar. O inglês não é tão vigoroso quanto o português. A música é vasta e aberta, eleva o seu espírito!

A coisa mais incrível que descobri na música brasileira é como uma canção pode misturar muitos gêneros, mas sempre manter essa essência de brasilidade. Bandas como Nação Zumbi mesclam ritmos de maracatu com rock, criando um trance pesado, quase meditativo. Claro que a energia e a música do Carnaval é algo extremamente único e inspirador.

O que seria uma boa dupla com um cantor irlandês e outro brasileiro? Quem mais estaria tocando nesta banda?

Bem, na verdade, Seu Jorge fez uma interpretação de uma música irlandesa de Damien Rice ‘The Blowers Daughter’, interpretada em ‘É Isso Aí’. Na verdade, eles tocaram juntos em São Paulo.

Ok, ótima pergunta, um supergrupo irlandês brasileiro. Eles podem estar mortos? Acho que temos que começar com Phil Lynott, do Thin Lizzy, no baixo e na voz; o baterista tem que ser brasileiro (desculpe, Irlanda!).

Entre tantos para escolher, eu escolheria Igor Cavalera, mas essa foi uma escolha difícil. Rory Gallagher (Irlanda) seria um dos guitarristas e, deixe-me ver, vocais de Jorge Ben Jor ou Chico Science. Eu seria o outro guitarrista, porque seria uma banda incrível para se tocar.

Se você pudesse tocar com um músico brasileiro, quem seria?

Jorge Ben Jor, acho que você poderia aprender muito apenas por estar na sala, sua abordagem musical é fascinante. Ou Anitta [risos].

Quais são suas influências musicais?

As influências brasileiras são Jorge Ben Jor, Nação Zumbi, Tom Jobim, Seu Jorge, Tim Maia. Bem, os músicos irlandeses que curto são Rob Gallagher, Christy Moore e Thin Lizzy. Eu amo caras como Neil Young, John Martin, Led Zeppelin, Tom Waits, Jackson Brown. Meu guitarrista favorito (muda todos os dias), hoje, é Mark Knopfler.

O que é música para você?

É vida.

“Preso em um jogo de Ases, rostos não suspeitos, suspeitos, desconhecidos, falando em línguas de perdão, segurando armas carregadas, descartando jogadas vagabundas, apenas por diversão.”

Quanto tempo você demorou para aprender português, como foi o processo?

Levei cerca de um ano. A música foi uma ferramenta útil, Roberto Carlos, por exemplo, suas letras são românticas e as músicas lentas são mais fáceis de seguir! No entanto, foi difícil no começo. No início de 2020, quando voltei ao Brasil, fui parado pela Polícia [Federal]. Eles disseram que eu tinha de pagar R$10.000 por ter ficado 765 dias além do que meu VISA permitia. Como eu não tinha conta em banco brasileiro, eles não podiam aceitar o pagamento do meu cartão. Expliquei que meu pai morava lá e que eu era noivo de uma brasileira, então me deixaram ir, entregando um boleto para pagar em um mês.

Lembro, também, de ter dúvidas com a pronúncia de palavras como “bread”, que é ‘pão’, e estar sempre com medo de pedir água de coco, que você fala “coco”, mas ambas as palavras são parecidas com outra coisa, o que seria bem engraçado se você pergunta ao cara da padaria ou do quiosque.

Sei como se sente! É como meu medo de dizer palavras em inglês como “folha” e “praia”.

Sim, é complicado! Porém, acho que com o português existem maneiras de descrever e explicar coisas que não teriam o mesmo efeito em inglês, por exemplo, explicar ‘como é a Bahia’ em inglês, diríamos, bem, que é ‘quente’, ‘ interessante’, ‘diferente’. Ainda assim, estas palavras não transmitem a verdadeira imagem e o sentimento do lugar, mas é diferente se pudermos explicar usando a emoção da língua portuguesa.

Daniel, como a pandemia afetou você?

Como a maioria dos artistas, estou usando esse tempo para praticar, escrever e criar e tenho a sorte de ter acesso a um estúdio de gravação de última geração que minha banda construiu durante esta pandemia. Para ganhar a vida, ensino inglês online e, no momento, todos os meus alunos são brasileiros, e também ensino português para ‘gringos’ [apelido que os brasileiros dão aos estrangeiros].

Acho que a pandemia forçou todos a olharem para dentro de si mesmos e realmente terem tempo para trabalhar em coisas pessoais que, de outra forma, não teríamos tempo para fazer.

“Parte de uma banda itinerante de um homem só, botas com bico de aço enferrujado. Vida na estrada em busca de suas raízes. Batendo continência sobre o distintivo, ele toca um blues”

Agora, conte-me sobre seus planos para o futuro?

Atualmente, estou trabalhando como guitarrista, cantor e compositor em um novo EP com uma nova banda. A banda é, na verdade, composta por meus melhores amigos com quem tenho tocado nos últimos 10/15 anos, então somos bastante unidos e nos entendemos muito bem. A banda é formada por mim (Guitarras, Vocal), Fintan McKahey (Baixo, Vocal) – (confira, é um cantor e compositor fantástico: www.fintanmckahey.com) e Darren Jennings (Bateria).

Este projeto está em evolução em termos de nome de banda, marca, etc. Mas felizmente a música parece ser a parte fácil e estamos muito felizes e animados com a qualidade das canções que estamos escrevendo. O Brasil influenciou nossa música, e vamos tentar misturá-lo com nossas raízes celtas no Rock. Esperamos ter tudo pronto em março de 2021 para lançamento na Irlanda, Portugal e Brasil.

Espero poder ouvir seu novo EP num pub de Dublin tomando uma pint de Guinness, talvez em Portugal com seus vinhos excelentes, ou mesmo no Brasil bebendo uma caipirinha!

Eu também espero, isso não seria ótimo?! Quando o mundo se abrir para nós, estaremos prontos!

“Cumprindo pena num maremoto, num navio dentro da garrafa
Pendurado no ninho de corvos
Um velho sábio sentado conta as moedas que se acumulam
e os rostos que vê na montanha.”


Foto de destaque: Kate Bean | Veja a versão em inglês. | Tradução para o português por Paola Benevides. | Os versos são fragmentos da música “Faces in the Mountain” do The Nash Brothers | ouça no Spotify.


Quer saber mais sobre música? Vem ler a conversa que tivemos com o Leonardo Ramos, da banda HARMUNDI: