O rio • Róisín-Anne Jenkinson

Isaías 41:18

A vida é cheia de voltas e reviravoltas inesperadas que trazem emoção e desespero, e podemos escolher o que ver e viver. Às vezes, pode ser difícil ser positivo, mas é aí que aqueles que nos incentivam entram em nossa vida e iluminam uma perspectiva sombria. Há momentos que precisamos sair da nossa zona de conforto e ter coragem para arriscar, independentemente do medo de se sentir constrangido ou de ser pego pela vergonha, é importante que tenhamos uma atitude diante a vida,  pois não sabemos onde podemos chegar. Se fizermos o que acreditamos ser certo e verdadeiro, na maioria das vezes, encontraremos admiração e alegria. É importante, no entanto, ter cuidado com os perigos, mas de um modo em que o medo não nos faça bloquear qualquer possibilidade potencial de viver uma vida plena e gloriosa, nos tornando assim, pessoas melhores ao passo que cruzamos com indivíduos de outros lugares com diferentes perspectivas sobre a vida, que nos fazem sentir dignos de tudo o que podemos ser.

1

Entrando e saindo da consciência é onde esse rio começa

fluindo de um pico montanhoso através de vales

sinuosos e interligados de leste a oeste para leste a oeste

Quase sempre suaves e estáveis, às vezes espirrando e batendo contra rochas

que te derrubam, deixando contusões

que só se revelam após alguns dias

manchas roxas e amarelas dolorosas, desagradáveis à pele

que você não consegue mais se lembrar como ou quando adquiriu…

mas então uma luz acende e você se recordar

onde esse rio começou

para o qual você está de volta, no mesmo curso de altos e baixos, esquerdas e direitas

tentando alcançar o banco de terreno sólido

onde você pode ficar firme, andar, correr, tudo, menos se afogar

neste dilúvio emocional de sentir demais, mas sem entender o que está sentindo

enquanto você tenta navegar no rio com suas ferramentas limitadas

ao tentar prever o que está além da curva, para que possa saber para o que se preparar

mesmo sabendo que não fará diferença

porque você só tem o suficiente para suavizar o golpe, e se machucar menos.

Mesmo assim, você rema pelas várias etapas deste rio

de velocidade rápida em declives acentuados sobre corredeiras e saliências verticais

onde a água cai e abruptamente se transforma em uma piscina

onde você pode ficar submerso por um tempo…

antes de flutuar de volta à superfície e tentar agarrar-se ao barco virado

enquanto você recupera o fôlego

antes de virar o barco para cima e subir de volta

você deve esvaziar a água que ainda está dentro

porque você não quer nadar em um barco que o mantém à deriva

em um rio de constante mudança

que o leva para longe em seu curso

para estágios mais lentos e suaves, com algumas curvas que faz você esticar o pescoço para olhar em volta

mas, pelo menos, você não está sendo sacudido,

Ameaçado por outra virada inesperada.

2

Você viaja lentamente através da água limpa

com o sol brilhando sobre você e tudo ao seu redor;

o rio cintilante, as árvores balançando, os pássaros cantando e a natureza rezando

para a luz surgir e permanecer neste paraíso abençoado e sereno,

você enxergará o que esqueceu

E será pego nessa perigosa realidade que afoga

em um mundo que não se importa se você vive ou morre

porque você é apenas um em um milhão,

ou melhor, em bilhões,

de pessoas lutando todos os dias para ganhar o que merecem

mas às vezes você esquece

que não é o único neste rio tentando ficar seco e seguro em seu barco

quando vir outros lutando para manter a cabeça acima da água, ofegante por ar

e quiser desesperadamente ajudá-los, puxe-os do rio furioso para o seu barco salva-vidas

mas há muitos para salvar e seu barco é pequeno demais para colocar todo mundo

então salve apenas as pessoas mais próximas a você

e reze para que haja mais barcos para resgatar os outros

em diferentes estágios deste rio ou em diferentes rios.

3

Rios se cruzam quando você menos espera

contribuindo para o fluxo e o movimento, elevando o nível do rio e suas emoções

aumentando a intensidade do choque do que é inesperado

o encontro de dois rios se tornando um

ou pelo menos dois rios seguindo o mesmo curso

pelo menos por enquanto

pelo menos até que os dois rios se separem para seguir seu próprio curso

e talvez entrem em rios diferentes mais adiante

ou talvez se reconectem mais tarde

mas quem sabe o que há nessa curva e na próxima, e na próxima e na próxima.

O rio flui continuamente e muda de direção constantemente

às vezes, dividindo-se em dois, permitindo que você escolha

qual o caminho para remar

às vezes, forçando, apressando você a uma curva acentuada sem nada para se agarrar

além da esperança de que você vai sobreviver a este rio furioso

e se esforçar ainda mais, com fervor,

Conforme a adrenalina do medo e da ansiedade percorre pelo seu corpo

Transformam-se em riso e entusiasmo, ao se entregarem ao rio que os leva em seu curso

suave ou áspero

conhecer pessoas ao longo do caminho com quem se conectará de alma

até você se tornar parte de uma cadeia, em comunhão

quem fortalecerá e encorajará uns aos outros à medida que todos vocês se movem juntos ao

longo deste rio.

4

O rio começa a desacelerar, deixando para trás a carga pesada para seguir em frente

enquanto você se apega ao que resgatou da água

no momento em que lutava para entender por que alguns remaram rio acima

usando toda a força para se convencerem de que não precisam mudar

mas mesmo indo contra o fluxo, eles estão inevitavelmente mudando

enquanto outros correm rio abaixo para ficar o mais longe possível do que já passou

perdendo os detalhes das coisas bonitas que passam como um borrão

em vez de reservarem um tempo para ver o que só pode ser visto em velocidade reduzida

e permitir que o rio os leve, no ritmo natural,

quando você se lembra de ter tentado remar rio acima e abaixo

torcendo o pescoço para trás e o esticando para ver curvas torneadas

Talvez você possa ver o que está por vir, desta vez

desta vez, ou talvez desta vez.

Desta vez, preste muita atenção aos detalhes capturados pela luz

e verá algo tão brilhante que cegará tudo ao seu redor

E começará a comparar a incisão detalhada da rocha irregular na pele,

cortando a superfície para deixar a luz sair de dentro,

para aquilo que você não vê mais

para o que você veria se apenas olhasse de onde estava respirando água

tentando ver a beleza abaixo da superfície

desconsiderando a necessidade de ar

consumindo galões e galões de água

que quando você puxa a cabeça para fora, ainda fica escoando rio de

volta ao rio por dias

É só depois que você vomita suas entranhas, do veneno que tomou conta de

seu corpo

que poderá se sentir limpo novamente

e lembre-se de quem você era para se tornar quem você é agora

aliviando a carga pesada que carregou por tanto tempo nas profundezas

deste rio,

que lembra e passa pelos lugares mais brilhantes que você chama de paraíso;

o Cair Paravel dos reis e rainhas preservando a beleza de cada detalhe

que faz você.

À medida que o rio se distribui, você pega o remo e segue em ritmo

constante

observando os deltas do seu passado enquanto você passa,

persistindo em alguns mais do que outros,

antes de chegar ao mar.

5

À sua frente há um horizonte infinito de azul;

céu azul acima da água azul com o sol brilhando para iluminá-lo.

Agora você pode considerar isso um final ruim, onde fica preso e perdido no mar,

onde

assado pelo sol, onde seu barco salva-vidas se torna seu túmulo

ou pode considerar isso como outro mistério, onde você vagueia e espera descobrir novos lugares

cheios

de beleza e luz

porque quem sabe o que está além desse horizonte.

Ninguém pode curvar os olhos para ver em uma curva, mas

você escolhe esperar que tudo fique bem,

você escolhe esperar que haja um litoral além desse horizonte,

você escolhe acreditar que este barco em que navega é o seu barco salva-vidas.


Róisín-Anne Jenkinson é artista visual, performer, poeta e curadora. Sua poesia circula em antologias e possui livros auto-publicados, incluindo sua obra mais recente Within Nature (2018). Já apresentou seus trabalhos em Dublin e Cork, na Irlanda, incluindo La Biennale di Venezia, na Itália (2017). Na curadoria de eventos literários e performances desde 2016, escreve diversas resenhas para o site inaction.ie.


Tradução para o português: Adriana Ribeiro | Paola Benevides


Arte em destaque por Josephine Duffy: Detalhe de ‘Flight and flow’ (Mullet Creek suite), uma pintura a óleo, 2020. Veja mais artes de Josephine.


Versão original em inglês aqui.