Então é Natal, por Luciana Damasceno

‘Quem diz que ama neve não passou pelo que estamos passando,’ Maria diz, a voz abafada pela máscara que deixa apenas seus olhos de fora. 

Testa e orelhas também estão protegidos pelo gorro esticado ao máximo, e ela bem que gostaria de estar usando óculos de natação. O granizo que não para de cair são pedrinhas de gelo em fogo cruzado e parecem decididas a cegá-la.

De qualquer forma, não há muito o que se ver. O céu cinzento é uma moldura mórbida às 4h da tarde desse 24 de dezembro. 

‘Tá aqui porque quer,’ fala Maurício, com riso zombeteiro. ‘Quase chorou de medo na Imigração, tava com o dinheiro contado. Agora aguenta.’

‘Ah, mas me disseram que o inverno da Irlanda era ameno. Ninguém falou de neve, nem de 10 graus abaixo de zero.’

‘Porque isso é raro aqui. A gente que deu azar. Devia ter deixado para vir em 2011, em vez de 2010.’

Maurício tenta manter o bom humor. Ele se recusou a comprar uma máscara, dizendo que era para os fracos e está arrependido. Mas deixou o cabelo crescer, afirmando que qualquer penugem no pescoço ajuda nessas horas.

Na Grafton Street, eles passam por trabalhadores da prefeitura. Eles usam pás para quebrar o gelo que transformou uma das ruas mais caras de Dublin em uma pista de patinação involuntária. Maurício se pergunta se não há uma forma mais eficiente de fazer isso, mas envia um sorriso de agradecimento aos servidores públicos assim mesmo. 

‘Ouvi dizer que tem tanta gente com perna e braço quebrado que não tem mais lugar no hospital,’ Maria diz.

Ela observa as suas botas pesadas marcarem o chão para logo depois desaparecerem, encobertas pela neve que volta com força. É como se ela nunca tivessem estado ali.

Eles continuam sua jornada pelo centro de Dublin, de volta para casa após um dia de trabalho que acabou mais cedo. Casa é o apartamento de dois quartos que ela e Maurício dividem com outras quatro pessoas na Parnell Street. Mas esta ainda não é a próxima parada. Eles têm uma missão a cumprir.

Maria olha a árvore de Natal disposta em frente à central dos correios e as decorações suspensas da Henry Street. As luzes delas parecem diferentes. Ou, talvez, elas só pareçam assim, já que Maria as vê de um ângulo distorcido, entre o gorro e a máscara, espiando rápido durante as poucas oportunidades que tem de levantar a cabeça. 

Flocos brancos grudam-se nos galhos secos das árvores. Maurício acha que elas parecem as árvores de Natal que ele fazia com algodão na escola. Ele admira a estátua de James Larkin, o Big Jim, o único que ainda parece esbanjar energia na O’Connell Street.

Maria e Maurício querem andar rápido, mas pressa não é bem-vinda nessas condições. É preciso ir devagar, dar passos calculados, manter os olhos no chão. Um Natal feliz depende da identificação prévia e correta de um buraco disfarçado pela neve.

Os poucos irlandeses ainda em compras fazem às vezes de equilibristas, sacolas em cada braço para manter o balanço. Seguem apressados, abrindo caminho em direção a estacionamentos ou ao transporte público. Desaparecem como peças de vídeo game que não passaram de fase.

Na Parnell Street, brasileiros espalham-se como formigas em busca de itens para a ceia de Natal, olhos ansiosos diante das prateleiras quase vazias dos supermercados. Maurício e Maria estão entre eles, entre aqueles que estão com pouco dinheiro no bolso. O inverno rigoroso afugenta a clientela e corta as horas de trabalho. Só agora eles juntaram dinheiro suficiente para as compras.

A chegada da notícia no apartamento é motivo para olhos cheios d’água. O espaço é mínimo, mas está preparado para a festa. A mesa está decorada com bolas coloridas. Um pequeno presépio está armado na estante e as doze pessoas já presentes, entre moradores e convidados, usam gorros de Papai Noel. Mas a estrela da festa não irá comparecer. Não haverá peru nesse Natal.

‘Comprei um presunto inteiro, foi o que tinha,’ Maurício diz, a voz desapontada, o sorriso forçado. ‘Mas não temam, tudo vai dar certo.’

‘Aqui eles servem presunto na ceia de Natal, e em muitos lugares do Brasil também,’ Maria diz. 

‘Mesmo que tivéssemos comprado antes, não teríamos onde guardar,’ Maurício completa, apontando para a mini geladeira, tipo frigobar, a única da casa.

Moradores e seus convidados entreolham-se e sorriem meio sorrisos. ‘A gente é brasileiro, não desiste nunca!’ alguém grita.

A escuridão lá fora faz Maria pensar que já é bem tarde, mas são apenas 5h da tarde. Há tempo de sobra para cozinhar o presunto antes da meia noite, assim se espera. O processo é longo e ninguém sabe exatamente o que fazer. 

Hora de perguntar ao Google, trocar ideais, brigar para decidir quem achou a melhor sugestão. Quase uma hora perdida entre pesquisa e discussão. Alguém pensa em ligar para a mãe, mas é proibido. Não, o Brasil não deve saber as dificuldades que se passa na Irlanda.

Enquanto alguns cuidam da cozinha, outros colocam garrafas de cerveja na varanda. Eles ainda não haviam adquirido o hábito local de beber cerveja em temperatura ambiente. Mas isso não é problema, a bebida está no ponto em segundos.

Enquanto o presunto cozinha, alguns resmungam que, no Brasil, já estaria ceando. ‘Na minha casa, não tem isso de meia noite não. Minha mãe diz que sendo meia noite em Belém, onde Jesus nasceu, está de boa.’ O riso corre solto.

Mais gente chega ao apartamento, que agora abriga quase 20 pessoas. Alguns chegam para ficar, outros para tomar banho ou lavar pratos. Nesse apartamento a tubulação não congelou, fazendo dele um ponto de encontro da família brasileira na Irlanda. Uma família que não vê sobrenome, estado de origem, ou cor de pele. 

Para enganar o estômago, a proposta foi experimentar uma iguaria típica do Natal britânico adotado pelos irlandeses: mince pies. Uma torta salgada de carne moída, assim se pensou. A primeira mordida revela a verdade e traz o desapontamento. O que há dentro da massa são frutas secas e ervas orientais. 

Poucos gostam, quem comprou finge que é bom. Maurício diz que gostaria de não estar cozinhando e sim segurando uma câmera, para filmar a cara de nojo ou de susto da maioria. 

A conversa continua, regada a cerveja e rich tea, biscoito tipo bolacha Maria. Alguém oferece outro biscoito, Scottish Fingers, e afirma estar comendo os dedos de William Wallace.

‘Freeedooom,’ o grupo grita em uníssono e cai na gargalhada. A vantagem do micro apartamento, em que cozinha e sala são um só, é que todos participam de tudo.

Após o inevitável debate entre biscoito e bolacha, histórias de natais passados são o novo tópico da conversa.

‘Eu estaria de short e camiseta até quando minha mãe me obrigasse a colocar algo mais respeitável,’ diz Maurício, olhando para as três camisas de manga longa e o moletom que usa por cima delas. 

Ele não é o único. Todos usam mais de uma camada dentro do apartamento, botas e meias grossas também. Muitos estão de luva e gorro. Aquecimento ligado está fora do orçamento.

Maria olha através das portas de vidro que dão acesso à varanda. Lá fora, as ruas da Parnell Street estão desertas.

‘Todos foram para casa para ver as famílias,’ Maria diz.

‘Nada, eles estão indo cozinhar para amanhã,’ Maurício diz. ‘A ceia aqui é no dia 25, um almoço no meio da tarde, e não na noite do dia 24.’

A palavra família fica ali, parada no ar. A conversa é animada, mas evita-se falar de saudade. Mas ela está presente, representada pelo notebook que cada pessoa tem ligado em frente a si. Uma janela para um mundo ensolarado sobre o qual dói só de pensar.

Alguém decide que é hora de ouvir músicas natalinas, ‘a melhor forma de entrar no clima da festa’. Outro fala para ter cuidado com o volume, mas é logo ignorado. ‘Não acho que os guardinhas vêm brigar com a gente hoje. Eles devem dar um desconto no Natal.’ 

A lista de músicas festivas no YouTube começa com Simone cantando ‘Então é Natal’, gerando risos acompanhados de protestos. Ainda que alguns acreditem que John Lennon deve estar se revolvendo no túmulo por conta do que fizeram com a sua canção, ninguém pula para outra música. A voz de Simone vira a melodia triste da noite fria e escura. 

De quando em quando, o som do telefone do Skype interrompe a cantoria. O sortudo da hora passa a mão no rosto, ajusta o moletom e tira o gorro para aparecer bem na tela. Acima de tudo, para provar que está bem, que está feliz, que a saudade existe sim, mas não é tão insuportável como é na verdade. 

A conversa com os familiares acontece ali mesmo, em meio a todo mundo, o caos das risadas e o cheiro de presunto com mel como pano de fundo. Algumas caras são convidadas a aparecer na tela, mostrando aos pais mais apreensivos que não se está sozinho, que a farra é das melhores.

‘A gente não pode preocupar a mãe,’ alguém diz, após o fim da chamada. 

‘A minha bate aqui amanhã se souber do frio e da falta d’água,’ outro diz.

No canto direito da sala, ao lado da televisão desligada, Maria encolhe-se. Agora sem máscara, mas ainda de gorro, ela esconde as mãos e a parte de baixo do rosto dentro do moletom. 

‘Maria parece uma sem-teto, dá um trocado para ela,’ alguém faz piada e todos riem. Riem do que foi dito, mas também de inveja, por ela ter tomado para si o lugar mais quentinho do apartamento. Riem também para esquecer que tem gente passando ainda mais frio lá fora. O centro de Dublin tem suas próprias tristezas.

O presunto chega à mesa meio rosado, mas não há mais tempo a perder. O dia 24 está quase no fim. Todos reúnem-se de pé ao redor da mesa e batem palmas, parabenizando o cozinheiro, enquanto as luzes do Spire fazem às vezes de estrela de Natal na escuridão.


Luciana Damasceno escreve contos, poesia e não-ficção. Ex-jornalista e membro dos grupos Writers Ink/Writing.ie e New Irish Communities/Irish Writers Center, ela mistura a cultura brasileira e irlandesa para dar vida às suas histórias. Sua poesia foi publicada pela Époque Press, Poetry Kit e Pendemic.


[Este conto foi publicado na primeira edição da revista “Conexões Brasil & Irlanda” • Dez 2020 disponível aqui.]

Imagem: Lua Pramos via Flickr

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