Independência, Café e Diáspora

A história dos batuques de São Paulo

Embora seja quase impossível designar com total precisão como o samba chegou no estado de São Paulo, há alguns pontos nos quais alguns pesquisadores concordam: ele está centrado na contribuição dos povos africanos, em especial os Bantus, e suas origens vieram de zonas rurais dos até então vilarejos dos estados do Sudeste.

É divulgado que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, apesar de ter-se implementado uma lei quase quarenta anos antes. Lei a qual não foi seguida, mantendo-se o tráfico ilegal até o ano de 1888. Os Ingleses estavam tentando fazer um acordo com Portugal afim de acabar com a escravidão desde o início do século XIX, no qual o Brasil, já independente, foi aceitar somente em 1826. Esse acordo fazia parte do reconhecimento da independência do Brasil pela Inglaterra, e foi implementado como lei em 1830.

As consequências desse acordo foi uma aceleração do tráfico de escravizados no período em que a lei ainda estava por ser implementada (1826-1830), seguido por uma queda quase total até 1835, e uma nova retomada a partir dessa data até 1850 quando finalmente firmou-se a lei da proibição do tráfico internacional.

Muitos fatores contribuíram para essa instabilidade no tráfico. O Brasil logo após sua independência entra em um período político bastante instável com a renúncia de Dom Pedro I, e a consequente passagem do trono para seu filho Dom Pedro II, que na ocasião tinha 5 anos de idade. Diante desta fase, uma complexidade de fatos históricos ocorrem, levando o Brasil a entrar em um período regencial acirrando ainda mais a divergência entre as ideologias dos partidos políticos: a ala liberal (pró republica de oposição à escravidão) e os conservadores (pró monarquia e escravidão), abrindo brechas para que o tráfico de escravizados continuasse.

Nesse período a maior parte dos povos trazidos da África para o Sudeste foram os Bantus. O estado de São Paulo começa a surgir como força econômica devido às plantações de café, e a diáspora africana segue um caminho: muitos Bantus são capturados nas partes centrais, se estendendo Norte (até Senegal) e Sul, e algumas partes pelo Leste (Moçambique), porém a concentração se dá na região conhecida como Congo-Angola.

Os capturados então eram direcionados aos portos da costa Oeste Africana, como Luanda, Cabinda, Malembo, e Benguela. De onde então passariam por três meses de viagem até desembarcarem nos portos brasileiros do Rio de Janeiro, Bahia, Santos, entre outros. A terceira parte da diáspora Bantu consiste na distribuição entre os vilarejos do Sudeste, tendo uma grande concentração no Vale do Paraíba, região que divide os estados do Rio e São Paulo. Esses locais tornam-se o foco de onde muitas manifestações culturais do Sudeste surgem.

Divination Ceremony and Dance, Brazil, 1630s”, Slavery Images: A Visual Record of the African Slave Trade and Slave Life in the Early African Diaspora. Wagener era um mercenário alemão da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais; em 1634, com cerca de 20 anos, foi para o Nordeste do Brasil onde ficou 7 anos. Fonte: slaveryimages.org.

Há um caminho no qual alguns denominam de ‘corredor do café,’ no qual os Bantus passaram e que liga Rio-São Paulo. Alguns municípios ainda mantém manifestações culturais centenárias como o jongo. Poderíamos citar algumas cidades Fluminenses do Vale do Paraíba, tais como Vassouras, Barra do Piraí (Jongo Semente D’Africa), Pinheiral (Jongo do Pinheiral), Volta Redonda (Jongo DiVolta), Madureira (Jongo da Serrinha), e cidades Paulistas como, Guaratinguetá (Jongo do Tamandaré), São José dos Campos, se estendendo por Campinas (Jongo Dito Ribeiro), Indaiatuba (Jongo Filhos da Semente), entre outras.

Mais tarde com a expansão territorial cafeeira, outras cidades começam a se desenvolver e consequentemente, mais escravizados migram, expandindo também as suas manifestações culturais. Especialmente após 1850 com a proibição do tráfico internacional, muitos chegam dos estados do Norte-Nordeste, em especial Bahia e Maranhão. Algumas cidades que ampliam o corredor do café e recebem esses escravizados são Campinas, Piracicaba, Vinhedo, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba entre outras, e que ainda hoje são encontradas as heranças culturais Bantus.

Nos raros momentos de tempo livre, os escravizados buscavam manter suas tradições culturais, como uma forma de resistência, a fim de mantê-las vivas . Apesar das condições completamente adversas,  eles ainda mantinham o culto aos antepassados, sua filosofia, cosmovisão, na qual inclui o batuque, nas suas mais diversas manifestações. Uma dessas heranças  foi o conceito da umbigada, que está relacionada a palavra semba, que se adaptou no Brasil como Samba. Semba tem como um dos significados ‘umbigo.’ A umbigada no contexto da dança se dá quando duas pessoas se movem dentro da roda aproximando seus umbigos. O umbigo na tradição africana é considerado a primeira fonte de alimento de um ser, é o elo de ligação entre os mais novos e os mais velhos, aqueles que um dia se tornarão ancestrais.

Outros conceitos herdados em São Paulo pelos africanos são: a roda que segue o movimento do cosmo, cantos ou pontos, que eram usados como códigos para escapar das correntes ou avisar quando o capataz se aproximava; espalhar encantamentos, desafiar, louvar ou mesmo para elevar o humor; a poeira levantada pelo bater dos pés no chão lembrando que pertencemos a esse plano; a fogueira que ilumina mantendo longe a escuridão e afina os tambores mantendo a roda aquecida durante as noites frias; e finalmente os tambores que são as vozes dos ancestrais e em muitas culturas africanas, tidos como o representantes das divindades na Terra.

Essas manifestações são os pilares do que é conhecido como ‘batuque’ e é por isso que é tão difícil traduzir ou mesmo definir. Esses conceitos mostram o quão complexas e ricas são as tradições culturais africanas, uma vez que é impossível desassociar os ritmos, as danças, espaços, sociedade, filosofia, já que elas fazem parte de um todo.

O Samba e o carnaval na cidade de São Paulo hoje segue os passos que foram traçados pelo Rio de Janeiro. No século XX até a década de 60, o carnaval por vezes era liberado e oprimido pelo poder público. A partir dessa década a prefeitura de São Paulo então concede a permissão para a folia em público, desde que os sambistas, os cordões e as escolas de Samba se regulamentem. O único modelo disponível quanto a regulamentação era o modelo carioca, no qual São Paulo também incorpora, trazendo consequências para os batuques mais tradicionais paulistas que ficam de lado,  desaparecendo algumas de suas características, ao menos dentro do contexto carnavalesco.

O Batuque praticado no Brasil do século 19, Lemar Mckoy em uma pintura de Johann Moritz Rugendas. Johann Moritz Rugendas (março de 1808 – maio de 1858) foi um pintor alemão que viajou pelo Brasil de 1822 a 1825 e pintou povos e costumes. Fonte: https://rio.fandom.com/wiki/Samba

Entretanto muito antes, desde os tempos da escravidão, em Pirapora do Bom Jesus (SP), que antes fazia parte de Santana de Parnaíba, algo único na história dos batuques do Sudeste aconteceu. A cidade era o maior ponto de encontro de romeiros do estado, devido ao aparecimento da imagem do Bom Jesus as margens do rio Tietê, por volta de  1725. A essa imagem foram atribuidos muitos milagres e curas e então muitos devotos iniciam a peregrinação até o local. Muitos eram fazendeiros de outras vilas e junto a eles chegavam seus escravizados.

Enquanto os brancos iam aos compromissos religiosos, os negros e romeiros de baixa renda econômica acampavam em uma área afastada. A Igreja então constrói dois barracões a fim de abrigá-los. Foram justamente nesses barracões que se iniciou um grande encontro de manifestações culturais, uma vez que todos ali traziam suas formas de batuque como o Samba de bumbo, jongo, batuque de umbigada, a dança de moçambique, congadas, ou seja todas as manifestações praticadas pelos Bantus e que mais tarde fizeram parte dos chamados batuques do Sudeste.

Após a abolição Pirapora continua atraindo os romeiros, e os batuques tem o seu auge até a metade da década de 30, atraindo inúmeros grupos de diversas regiões de São Paulo, e que poderia considerar como um festival de manifestações culturais. Porém o sucesso dos batuques é tão grande que começa atrair mais gente do que as próprias celebrações religiosas dentro da festa de Pirapora, o que leva ao descontentamento da igreja, que destruiu os barracões e mais tarde na década de 40, há a proibição oficial dos batuques, ficando somente as celebrações religiosas.

O legado de Pirapora do Bom Jesus é justamente ser o ponto de encontro para todas essas manifestações que ocorriam dentro do estado, mesmo antes da cidade de São Paulo se tornar uma das potências econômicas do Brasil. Com a aceleração demográfica, a capital paulista cresce e muitos homens livres após a abolição buscam-na a fim de encontrar trabalho. Essas pessoas estabelecem suas residências nos bairros nos quais, não por coincidência, surgiram os primeiros cordões carnavalescos e consequentemente as primeiras escolas de Samba da cidade. Muitos dos que frequentavam os encontros de Pirapora se tornaram os fundadores dessas escolas.

Assim conseguimos ver como a chegada dos povos Bantus nas plantações cafeeiras se iniciou, e como eles conseguiram manter suas tradições vivas em meio a tantas adversidades. Pelo corredor do café, iniciado na parte Fluminense do Vale do Paraíba, o jongo, batuque de umbigada, Samba de bumbo, moçambiques e congadas se alastraram por todo o Sudeste se estendendo até o Sul do país, e uma vez que vários grupos se encontraram em Pirapora, eles providenciaram que o chão das terras rurais fossem preparados para que o Samba na cidade de São Paulo pudesse passar sobre o asfalto.

Infelizmente esses batuques do Sudeste ainda são pouco conhecidos, até mesmo nas regiões onde eles se perpetuam, porém eles sobreviveram e continuam fortes, já que alguns deles têm sido reconhecidos como patrimônio imaterial, claro que ainda com muitos desafios de apoio por outras partes do poder público e até mesmo de setores da sociedade. Porém, esses batuques são provas da resistência dos povos Africanos dentro de suas diásporas, já que apesar de seus ancestrais terem passado, há uma continuidade de quase 400 anos a atravessar um período histórico vergonhoso de Brasil e Portugal. Muito foi tirado dos povos e descendentes Africanos: sua dignidade, sangue, trabalho, cultura, espiritualidade, etc. Entretanto foi exatamente através da força de sua cultura, de sua filosofia e cosmovisão que homens e mulheres Africanos se mantiveram vivos, apesar das circunstâncias terríveis, esses ancestrais foram capazes manter e espalhar por gerações seus conhecimentos, mantendo o que nós conhecemos hoje como cultura Afro Brasileira.

Algumas das cidades no interior de São Paulo nas quais se mantém o batuque são (além dos jongos já citados): Samba de bumbo: Pirapora do Bom Jesus (Grupo Samba de Roda), Santana de Parnaíba (Grupos Cururuquara e Grito da Noite), Campinas , Mauá (Samba de lenço), Vinhedo (Samba D’Aurora). Batuque de umbigada nas cidades de Piracicaba, Tietê e Capivari, e ainda o Moçambique e Congadas no município de Aparecida.


• Foto de Capa: “Grupo 13 de maio do Cururuquara” na Casa do samba de Pirapóra do Bom Jesus, por Kamilla Egry.

BIBLIOGRAFIA:

BENEDITO_Daniel Martins Barros: O Samba de Bumbo de Santana de Parnaíba/SP e a Educação na perspectiva Decolonial. Campinas. UNICAMP. 2020.

DA CRUZ_Luiz Paulo Alves: O jongo e o moçambique no Vale do Paraíba (1988-2014): cultura, práticas e representações. São Paulo . PUC. 2015.

DIAS_Fernanda de Freitas: Na batida do bumbo, um estudo etnográfico do Samba na cidade de Pirapóra do Bom Jesus-SP. São Paulo. UNESP. 2008

MANZATTI_Marcelo Simon: Samba Paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o Samba de Bumbo, ou Samba Rural Paulista. São Paulo. PUC. 2005

MARCELINO_Marcio Michalczuk: Uma leitura do Samba rural ao Samba urbano na cidade de São Paulo . São Paulo. Universidade de São Paulo. 2007.

MONTEIRO_Lais Bernardes: Diálogos entre Tradição , Memória e Contemporaneidade: Um estudo sobre o Jongo da Lapa. Rio de Janeiro. UNIRIO. 2015


Mais sobre samba:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *