Mitos e História

Mitos e História costumam se assemelhar porque, no fundo, são feitos da mesma substância” como ensina o grande JRR Tolkien.

Como linguagem simbólica, os mitos são os portadores de mensagens que a mera linguagem racional não é capaz de transmitir, preservando e enriquecendo, através do reconhecimento dos arquétipos, a profundidade da História.

Desde o afloramento de sua identidade, o Brasil é, por origem e definição, uma terra mítica: daí ser possível – e quase inevitável – identificar nos personagens que informam nossa História a “Jornada do Herói” campbelliana, resgatando a rica mensagem simbólica que a historiografia materialista é incapaz de acessar.

A começar pelo nome – além da versão que nossa querida tiazinha professora de História nos contou, segundo a qual o nome Brasil deriva da cor do lenho da árvore homônima, a outra, igualmente embasada academicamente, que tem por base as narrativas míticas da Irlanda medieval VC que tratam da jornada mágica de um místico chamado St. Brendan, o Navegador. Na mais extensa versão, Brendan e um grupo de companheiros embarcam numa pequena nau e partem da Irlanda rumo a Oeste, numa aventura repleta de encontros com seres divinos e criaturas mágicas, até chegar a uma ilha paradisíaca. O relato de Brendan não é o único do gênero na literatura irlandesa: narrativas como “A Viagem de Mael Dúin”, “Niamh agus Oisin” e “A Viagem de Bran Mac Febal à Terra da Juventude” apresentam o mesmo tema: um viajante deixa a Irlanda e navega rumo Oeste, chegando a um paraíso. Coletivamente chamadas de “imramma” (literalmente, reações, aludindo à jornada por mar), essas histórias eram muito populares na sua Irlanda de origem e, graças à intensa atividade cultural dos monges irlandeses no continente europeu, também em outros países. Não por acaso, uma das mais populares era justamente a aventura de St Brendan, traduzida para o latim como “Navigatio Sancti Brendani”, cujo texto mais completo foi encontrado na Biblioteca do Mosteiro de Alcobaça, em Portugal, onde o nome Irlandês Brendan foi adaptado ao popular sobrenome Brandão. Assim, a navegação de São Brandão o leva a uma ilha paradisíaca conhecida como “Ilha dos Abençoados” – ou, em Irlandês antigo, Hy-Brasil (assim mesmo, com S).

A ilha de Brasil era tão popular que diversos mapas do século 14 – portanto, muito antes de Cabral, Colombo e Vespúcio – posicionavam-na a Sudoeste da Irlanda como uma ilha real. É justamente nesse mesmo século 14 que uma ordem papal extingüe a mística Ordem dos Cavaleiros do Templo – os Templários – em toda a Europa, menos em Portugal, onde por ordem do sábio Rei Dom Dinis, a ordem apenas muda de nome e sobrevive como Os Cavaleiros da Ordem de Cristo. Além do nome, a única outra mudança é a adaptação do símbolo da ordem templária – a cruz pátea, ou de oito pontas, que na nova encarnação permanece vermelha, nas com o interior branco.

É sabido que os Templários possuíam grande influência política e financeira, bem como detinham conhecimentos sobre artes como construção, armamentos e navegação ainda restritos àquela altura. Pois em Portugal, poucas décadas depois, surgirá também a Escola de Sagres, um colegiado abrigando os mais renomados cartógrafos, construtores de naus e navegadores que, juntos, fariam do pequeno Reino de Portugal o Senhor dos Mares. A influência da Ordem de Cristo no projeto marítimo de Portugal é inegável, a ponto de as naus e caravelas ostentarem como símbolos, além do real estandarte português, a Cruz da Ordem de Cristo em suas velas – aquela, derivada da Cruz Templária. É fundamental lembramos que a Ordem dos Templários teve sua fundação intimamente associada à personalidade de São Bernardo de Clairvaux no século 13, o mesmo São Bernardo que instituiu a Ordem de Cister, outra importante instituição religioso-cultural da Idade Média com mosteiros e conventos em vários reinos – inclusive na Irlanda, onde a Abadia de Mellifont é a Casa Mater. Assim, não deve causar surpresa que a Ordem dos Templários tenha sido instrumental na fundação do próprio Reino de Portugal, e que a Ordem de Cister tenha ali fundado mosteiros formidáveis – como o já mencionado Mosteiro de Alcobaça. Percebem a correlação? Um mito da Irlanda celta fala de um místico que chega a uma Ilha dos Abençoados (Hy-Brasil); em seguida, uma ordem monástica notória pela promoção e intercâmbio de cultura se estabelece simultaneamente em Portugal e na Irlanda; uma tradução da lenda de St Brendan é traduzida e popularizada em Portugal; Portugal se lança ao mar, descobrindo novas rotas e novas terras ; e uma dessas terras recebe justamente o nome da ilha paradisíaca encontrada nas “imramma” – as narrativas irlandesas de viagens ao paraíso.

Não há como não concordar com o genial Sir Roger Casement, diplomata irlandês do século 20 que, durante o período em que viveu no Brasil, afirmou categoricamente – e com muito orgulho que “é certo que o nome dessa grande nação sul-americana deriva das lendas e da própria alma celta da Irlanda.”

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