Em Conversa • Leonardo Ramos

Leonardo Ramos é fotógrafo, músico e cineasta – bacharel em Comunicação Social e Cinema pela FAAP de São Paulo e pós-graduado em Comunicação de Ciências e Documentário Científico pela Universidade de Otago, na Nova Zelândia.

Iniciou sua carreira como câmera e assistente de direção em documentários de vida selvagem para a National Geographic Latin America e para o cinema. Suas fotos foram exibidas e premiadas no Brasil e no exterior. Ele também deu aulas e palestras sobre o assunto dentro e fora do país.

Como músico, atualmente administra a banda Harmundi, de folk psicodélico, onde também canta e toca uma variedade de flautas exóticas.

Posso te dar uma dica? Clica aqui no link abaixo para ouvir o álbum enquanto lê nossa conversa, mas claro, apenas se conseguir parar de assistir este video:

Leonardo, de onde vêm seus olhos?

Creio que dos meus pais! Recebi deles toda sorte de meios para explorar a vida e criar coisas a partir dela. Sou extremamente grato a eles.

Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí – Brasil. Fotografia por Leonardo Ramos

Você é de São Paulo, viveu e estudou na Nova Zelândia e pretende se mudar para Galway. Como foi sua experiência na Nova Zelândia, quais são suas expectativas sobre Galway e como são as cenas de música celta e irlandesa nesses lugares?

Em 7 anos de carreira fotográfica e cinematográfica em São Paulo, meu trabalho era tratado como “passável” e retorno que eu tinha, não diferente de tantos dos meus colegas, era estrategicamente calculado para que eu trabalhasse o máximo possível e ganhasse o mínimo possível: eu deveria considerar-me sortudo por ter merecido a atenção de uma ou outra produtora, que eram gentis o suficiente para me oferecer um salário mínimo em troca do meu comprometimento integral durante todo o ano. Não tinha férias, nem tempo livre, e ai se reclamasse de atender telefone num domingo de manhã!

Em 1 ano morando na cidade de Dunedin, Nova Zelândia, enquanto fazia pós graduação, eu exibi minhas fotografias em duas galerias de arte, fui contratado para dar duas palestras no New Zealand International Science Festival (Festival Internacional de Ciências da Nova Zelândia) e tive uma produção criativa mais expressiva do que naqueles 7 anos anteriores juntos. Eu também tinha tempo para dormir 8 horas por noite, fazer meu supermercado, cozinhar meu jantar, fazer minha academia, sair para beber e dançar nos fins de semana e viajar um pouquinho de vez em quando.

A Nova Zelândia me ofereceu, então, uma qualidade de vida que eu nunca tinha tido antes, e deu ao meu trabalho algo que São Paulo infelizmente nunca deu: valor. Lá eu era tratado como profissional, contratado como tal e pago como tal – o efeito psicológico disso é surpreendentemente tranquilizador e estimulante. Não é à toa que alguns dos países mais progressistas e bem desenvolvidos do mundo discutem hoje a redução da jornada de trabalho para aumentar a produtividade e a qualidade dos serviços.

Eu amo o Brasil! A saudade que sentia do meu país e do meu povo era tamanha que eu jamais ouvi tanto Zeca Pagodinho e tanto Kid Abelha quanto nesse período neozelandês. Meu amor pelo Brasil foi o que me trouxe de volta depois da pós graduação, apesar de ter-me sido oferecido um emprego na Natural History New Zealand, uma das maiores produtoras de documentário do mundo.

E foi muito bom, voltar! A cena de música irlandesa em Dunedin não era nem de longe tão grande e empolgada quanto em São Paulo, e isso talvez tenha sido a coisa que eu mais sentia falta lá: tocar com os meus amigos nas Irish sessions paulistanas. Realmente, tem algo de muito mágico nessa cena de música irlandesa brasileira. Eu cheguei no Brasil bem a tempo da Irish Session Nacional de 2018, em que pessoas vêm do país todo para aproveitar uma noite épica tocando juntos em São Paulo.

Mais boas notícias vieram da consolidação profissional da banda em que toco, a Harmundi. Depois de conhecer profissionalmente a Nova Zelândia, eu tomei alguns banhos de água fria no Brasil, e acabei desistindo de trabalhar com fotografia e cinema aqui, por conta das péssimas condições desse mercado. Minhas necessidades financeiras acabei sanando com a música, pela primeira vez na vida. E foi sensacional! Em 2019 eu descobri que podia ser tão feliz tocando música irlandesa psicodélica nos palcos de São Paulo quanto fotografando natureza na Nova Zelândia.

Então quando os meus companheiros de banda vieram com essa idéia de mudar para Galway, a idéia me caiu que nem uma luva: não consigo pensar num futuro mais animador do que me mudar para um país onde artistas são valorizados, onde eu posso voltar a fotografar profissionalmente, onde eu posso aprender música irlandesa com os Mestres do assunto e, ainda por cima, na companhia da minha namorada e alguns dos meus melhores amigos brasileiros!

Porto Jofre – Pantanal Norte – Brazil. Photograph by Leonardo Ramos

Como e quando aconteceu essa sua conexão com a música folk e seus instrumentos, e o que isso significa para você?

Meu primeiro instrumento foi o piano, e eu estudei música erudita e um pouquinho de jazz por uns 5 anos, quando ainda estava na escola. Apesar de amar o piano (que eu ainda pretendo retomar), estudá-lo foi ficando cada vez mais complexo na época, por alguns motivos: a falta de portabilidade, que me impedia de tocar com os meus amigos em jam sessions; a leitura de partituras, que nunca foi meu forte, apesar de crucial para o estudo da música erudita; e a falta de tempo, que acabou sendo decisiva no meu afastamento do piano na época em que andava estudando para o vestibular e tentando me agarrar ao pouco de vida social que me restava.

Minha primeira tentativa de remediar essas questões foi cantar numa banda de hard rock durante o ensino médio – uma das minhas empreitadas musicais mais deliciosas e mais desastrosas, e que acabou logo.

Foi nessa época que eu desenterrei uma gaita que morava no fundo de uma gaveta minha desde o meu aniversário de 1 ano. A gaita me ajudou a continuar tocando música, e veio com um bônus sensacional: eu podia usar a bichinha para tirar temas irlandeses de ouvido, algo que eu estava começando a descobrir.

Nessa época, justamente, eu havia sido coagido por um grande amigo a assistir a trilogia do Senhor dos Anéis, sob a justificativa de que ele considerava absurda minha completa ignorância sobre esta obra prima do século XIX. Este ato de compaixão do meu amigo foi o que despertou em mim o interesse por músicas de origem celta – e antes mesmo do emocionante final d’O Retorno Do Rei eu já andava baixando tudo o que encontrava como “música celta” na internet (isso foi naqueles primórdios internéticos, em que baixava-se música pelo Limewire e o YouTube ainda engatinhava).

Esses downloads incluíam bandas como The Chieftains, Lúnasa, Altan e Planxty. Em pouco tempo, eu me achava o único alienígena do Brasil que apreciava a bela arte da música tradicional irlandesa. Eventualmente, ganhei minha primeira tin whistle de presente de uma ex-namorada, e me empenhei para testar a paciência de todos à minha volta com inexoráveis repetições do tema dos hobbits. Finalmente, meu repertório recebeu uma lufada de diversificação quando descobri essa magnífica comunidade de músicos e entusiastas da música irlandesa em São Paulo.

Em 2014, eu toquei minha primeira tune irlandesa na session do Deep Bar 611. Ainda ecoando o auto-julgamento dos meus anos de jazz e música erudita, considerei minha interpretação de “The Butterfly” um cruel assassinato de um inocente slip-jig – apesar disso, só ouvi elogios e incentivos dos outros músicos presentes. Realmente, eu nunca havia sido tão bem recebido por artistas em lugar nenhum. Eu não era nem de longe um bom whistler, mas essa receptividade nas sessions foi o que me encorajou a continuar praticando, crescendo, e, eventualmente a aprender a flauta irlandesa, a flauta Boehm e a experimentar outros sopros exóticos como a ocarina transversal, a NAF (Native American Flute) e o xaphoon.

Eu descobri que os músicos irlandeses são conhecidos por esse espírito receptivo e inclusivo, e esse comportamento imperava (e ainda impera) nas sessions de São Paulo. Eu pude tocar ao lado de pessoas com décadas de experiência, e não importava muito se eu era bom ou mau músico (desde que eu tocasse no tom e no andamento corretos, claro).

Pra mim, o significado todo é esse: tocar música irlandesa é relaxar, é trocar uma idéia com os amigos sem me preocupar se estou sendo julgado por deslizes ocasionais. Os instrumentos são os meios para essa troca de idéia, e a música é a linguagem que usamos para isso. Não é sobre ser o mais bacana, o mais virtuoso, não é uma competição de forma alguma – é sobre a música e tão-somente a música. A gente toca porque ama a música e precisa mantê-la viva. A música (especialmente a música irlandesa, para mim) é aquele “algo maior” que nos une e nos torna mais humildes.

Foi essa a motivação para realizar um documentário sobre essa cena musical no Brasil – um filme que eu batizei com a frase célebre do poeta W. B. Yeats: “aqui não há estranhos, apenas amigos que ainda não se conhecem” (disponível no meu canal do YouTube). Dentre os amigos que conheci por causa da música irlandesa está, por exemplo, a minha namorada, que fundou a banda comigo.

Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí – Brazil. Photograph by Leonardo Ramos

Uma das coisas que admiro nessa música é a ausência de letra, que faz os instrumentos parecerem que estão cantando. Você poderia falar-nos sobre esses instrumentos e suas linguagens?

Mesmo as músicas com letra parecem estar dizendo algo que vai bem além das palavras. É aquela coisa de que o produto final é maior do que a soma das suas partes.

Essa é dessas coisas que talvez sejam um pouco óbvias para quem é músico profissional, mas que me impressionou muito e continua me encantando bastante, e por isso repito para todo mundo: música é uma linguagem!

Você entra num bar, pega umas cervejas, e senta para trocar uma idéia com os amigos usando a língua portuguesa, a língua inglesa – ou a língua do jazz, a língua do choro, a língua da música tradicional irlandesa. Você aprende os elementos fundamentais (palavras, notas, escalas, etc), você aprende a gramática e, com isso, você pode se comunicar. Você pode “falar” música irlandesa com pessoas do mundo todo, independente do idioma verbal das pessoas. Você pode criar laços por causa da música, e viver e comunicar experiências e emoções bastante complexas, sem usar uma palavra sequer.

Diz-se que a música de um povo soa como a fala desse povo. Um instrumento é uma voz pessoal do músico, que ele toca com seu “sotaque” particular – o sotaque do gênero musical e o seu próprio, inclusive. Eu não sou, de maneira alguma, um grande entendedor de música, mas não creio que se precise ser para inferir que uma mesma flauta terá sons distintamente diferentes se tocadas pelo Altamiro Carrilho, pelo Matt Molloy, pelo Ian Anderson ou pelo Jean-Pierre Rampal.

“E os nossos visuais vêm do mesmo lugar da música: não é sobre como gostaríamos de aparecer, mas sim sobre como aparecemos quando somos verdadeiros com nossos próprios impulsos criativos.”

Sua banda, a Harmundi, toca folk psicodélico. Você poderia nos contar sobre este tipo de música, sobre sua banda e o motivo pelo qual escolheram o nome Harmundi?

O nome da banda vem de “Harmonices Mundi”, que é o título de uma publicação de um astrônomo e músico chamado Johannes Kepler (1571 – 1630). Neste trabalho, o Kepler traça um paralelo interessantíssimo entre a harmonia musical (criada pela justaposição ordenada de uma série de freqüências sonoras) e a combinação das freqüências das órbitas dos astros – que ele chamou de “musica universalis”, a harmonia dos mundos, que é magnífica e grandiosa, mas que jamais será ouvida. Ela só existe lá, irredutível e indiferente ao que se pensará e dirá sobre ela.

A gente tem uma certa paixão por se alongar em fluxos de pensamento como esse – seja verbalmente, ou por meio de improvisação musical. Bom que se diga, entretanto, que evitamos devaneios pseudo-científicos ou fantasias New Age. Do ponto de vista do marketing, isso acaba sendo importante de dizer com alguma freqüência – minha experiência de produtor de uma banda de música irlandesa me mostrou que muitas pessoas no Brasil ainda estão presas a estereótipos do tipo “música de elfos”, sintetizadores fazendo “oooooooooom” e “Lá = 432, a freqüência da cura”. Há que se trabalhar um pouco ainda para dissociar a música irlandesa do estereótipo do New Age.

Pois. Originalmente, nosso plano era tocar música tradicional irlandesa! A banda foi formada por mim e mais dois amigos de session. Na época, éramos três flautistas que estavam começando a aprender a tocar música irlandesa: um cineasta/fotógrafo, uma cientista/musicista e um designer. A banda surgiu com três flautas e nada mais. O que não era exatamente um problema, já que a idéia era tocar pela diversão.

E divertido foi (continua sendo, a bem da verdade).

A banda foi criada em março de 2017, e já começou com ensaios semanais – não porque tínhamos qualquer pretensão de ganhar dinheiro, fazer shows ou gravar álbuns. Na verdade, a gente só precisava muito de uma válvula de escape para o estresse da vida paulistana, uma oportunidade de nos deixar levar pelo fluxo criativo. Esse fluxo nos ensinou algumas coisas importantes sobre nós mesmos – uma delas foi que nós não somos irlandeses, e, sim, brasileiros apaixonados pela música irlandesa. Isso é importante, porque significa que dificilmente nós chegaríamos a soar igual aos nossos ídolos irlandeses… o que também não é um problema. É fato que não tivemos o repertório cultural e musical que levou esses ídolos a soar como soam, mas nós tivemos o nosso próprio repertório e as nossas próprias inclinações, que nos levam a soar como soamos.

Então aliamos os nossos dedicados estudos da técnica da música tradicional irlandesa a toda e qualquer experimentação musical que nos soasse apropriada. Dessa liberdade artística (e da falta de um repertório mais extenso de temas irlandeses), brotou a nossa notória tendência ao improviso. Daí o lado “psicodélico” do negócio: de repente, nós estávamos fazendo música irlandesa de uma maneira não muito diferente da qual as clássicas bandas de rock psicodélico criavam seu som, com improvisos livres e essa espécie de fluxo de consciência que elabora sensações, emoções e experiências dentro de uma linguagem musical.

Quando finalmente decidimos fazer da banda um empreendimento profissional, nossa proposta foi justamente essa: realizar apresentações que estimulem as pessoas a prestar atenção no momento presente que estão vivendo. Nossos shows são razoavelmente imprevisíveis e irrepetíveis, já que parte considerável deles são improvisos de melodia, de harmonia, ou de ambos ao mesmo tempo – de forma que a mesma música jamais é tocada e ouvida duas vezes da mesma maneira. Isso em si não é novo: a música tradicional irlandesa tem essa coisa muito legal de que “o mesmo tema nunca é tocado duas vezes da mesma maneira” – nós demos uma interpretação psicodélica a esse axioma.

Daí chamarmos o nosso som de Música Irlandesa Psicodélica ou Progressiva. Eventualmente, descobrimos que existe um gênero chamado Folk Psicodélico, mas, mesmo dentro dele, até agora não vi ninguém brincando com temas irlandeses, como nós.

A cereja do bolo foram as nossas adições visuais, nosso show de luzes psicodélicas. Tivemos a necessidade de investir em luzes de show, já que esta não parece ser uma grande preocupação das casas de show menores de São Paulo – então por que não resolver esse problema com aquele meu diploma de cinema e aquela minha experiência com direção de fotografia que andavam meio esquecidos e carentes de alguma canalização? E os nossos visuais vêm do mesmo lugar da música: não é sobre como gostaríamos de aparecer, mas sim sobre como aparecemos quando somos verdadeiros com nossos próprios impulsos criativos.

“não podemos simplesmente ignorar os ruídos que são parte de nós mesmos, quando tentamos reproduzir música tradicional irlandesa de uma perspectiva brasileira e pós-moderna.”

Que bandas e gêneros de música te inspiram?

Em termos celtas, eu diria que tenho tirado bastante inspiração de conjuntos contemporâneos como Flook, Kan, The Elephant Sessions, The Gloaming…

Mas para além disso, eu diria que minhas maiores influências seriam os mestres da improvisação psicodélica e dos shows de luzes criativas: ninguém menos que Pink Floyd. Aliados, também, ao grande Ian Anderson, um ídolo-flautista meu. O trabalho dele com o Jethro Tull e, mais ainda, sua carreira solo, colocaram bastante lenha no meu interesse pela música folk e me deixaram claro desde muito cedo que não há limites para a fusão de gêneros e influências musicais.

Pois então, não posso deixar de mencionar o rock entre minhas grandes paixões. Em especial, aquele hard rock dos anos 80, que também acabou me aproximando do Synthwave – como melodista, devo parte da minha prática às minhas velhas habilidades com o teclado, que hoje emprego estudando e tocando linhas melódicas maravilhosamente bregas, no estilo da trilha sonora do Blade Runner ou do Stranger Things, dentro de um projeto solo que chamo de S I M S.

O Synthwave também me levou aos deleites do Vaporwave, uma espécie de reciclagem ácida (apesar de nostálgica) da estética pop dos anos 80 e 90. O negócio do Vaporwave é trabalhar com o ruído como parte integrante da informação, em vez de só ignorá-lo ou tratá-lo como perturbação. Por exemplo: a experiência de ouvir-se uma versão remasterizada de Shine On You Crazy Diamond no Spotify é dramaticamente diferente da experiência de ouvir-se a mesma música numa fita cassete velha. As distorções de som, a baixa amplitude de freqüências, o ruído de fundo, nada disso deve ser encarado como “defeitos” atrapalhando uma experiência musical potencialmente agradável – eles são parte daquela experiência particular, e trazem toda uma atmosfera de nostalgia que não poderia ser expressada só pela teoria e prática musicais envolvidas. Não é uma questão de melhor ou pior, mas sim de identificar duas experiências diferentes: o Vaporwave propõe que esses elementos não estão perturbando a informação, mas alterando-a, acrescentando outras dimensões a ela, contribuindo para a experiência de ouvir música. Daí vêm os meus pensamentos sobre a Harmundi: não podemos simplesmente ignorar os ruídos que são parte de nós mesmos, quando tentamos reproduzir música tradicional irlandesa de uma perspectiva brasileira e pós-moderna. Em vez de usar uma energia absurda para ignorar as nossas peculiaridades em nome de um som idealizado, podemos construir em cima dessas peculiaridades, da mesma forma como o Vaporwave constrói em cima dos ruídos e peculiaridades daquela estética “tosca” dos anos 80 e 90.

Jazz e música erudita ainda são uma parte considerável da minha vida. Também ando experimentando bastante com música nativa americana e com tango.

Sua banda participou do Festival Celta Brasil esse ano, pela primeira vez online. Como foi a experiência de eventos como esse?

O Covid-19 sem dúvidas dificultou bastante a vida de músicos e artistas em geral. Mas se pudermos pensar num “lado bom”, foi o de estimular também a criatividade em alguns, buscando soluções novas para a falta de trabalho – soluções que podem inclusive gerar excelentes resultados a longo prazo. Foi esse, claramente, o caso do Festival Celta Brasil 2020. Até agora, dificilmente ver-se-ia vantagem em converter esse festival tradicionalíssimo, que enchia platéias, em uma empreitada 100% online. Mas esse foi o único jeito de contornar a crise do coronavírus esse ano, e a Fernanda Faez, diretora, fez disso uma oportunidade para expandir a gama de atividades para duas semanas bastante diversificadas de aulas, workshops, bate-papos e shows de música e cultura celta – e para expandir o Festival para uma escala nacional. Tivemos artistas mostrando seus trabalhos desde São Paulo até Brasília, até Galway; palestrantes falando do Rio de Janeiro até Dublin, até Portugal. E foi uma grande honra ter o Harmundi no meio disso tudo! A Fernanda nos chamou para fazer algo celta e “ousado”, e nós entregamos um belo e psicodélico clipe para a “Morning Chicken”, uma faixa do nosso novo álbum, “Um Orvalho Boral” – juntamente com um bate-papo bem estimulante sobre o nosso trabalho com música irlandesa. Esse clipe está disponível no YouTube da banda, e o bate-papo está no canal do Festival Celta.

“Sinceramente, eu poderia encher páginas e páginas com motivos pelos quais eu amo a natureza, mas creio que isso seria tão efetivo quanto um cachorro tentando descrever o prazer de uma coçada na barriga.”

Você escreveu o artigo “How Photography Inspired Me To Love Science And Preserve The Planet“, publicado pela revista virtual PhotographyLife, e seu trabalho é guiado pela crescente importância da comunicação visual para a preservação do meio ambiente. Poderia nos contar sobre o seu interesse e trabalhos com natureza e vida selvagem?

Então, sabe como a música é um tipo de linguagem? Fotografia também! Aliás, cada vez mais as pessoas estão se comunicando e se informando por meio da linguagem visual.

Beeeeeem antes de eu sequer considerar tocar música (inclusive, antes de eu ter idade para considerar qualquer coisa), eu tinha uma câmera nas mãos. Meu pai é fotógrafo, e sempre foi nossa tradição sair para tirar umas fotos. Eventualmente, comecei a curtir mais fotografar animais e plantas do que pessoas e cidades, e isso acabou me aproximando bastante das coisas da natureza. Muito para o agrado do meu pai – nossas expedições fotográficas expandiram das ruas de São Paulo para as trilhas mais selvagens desconhecidas do sertão brasileiro, onde ele vive atualmente. Também surgiu daí a minha carreira com documentários de natureza.

Sinceramente, eu poderia encher páginas e páginas com motivos pelos quais eu amo a natureza, mas creio que isso seria tão efetivo quanto um cachorro tentando descrever o prazer de uma coçada na barriga. É melhor o cachorro se ater ao aproveitamento da coçada, e nós ao aproveitamento da natureza, em vez de tentar descrever tudo. ENTRETANTO, já que uma porção significativa da humanidade não tem mais contato real com a natureza (ao ponto de que terraplanistas e negacionistas do aquecimento global realmente são ouvidos), também julguei necessário me aventurar numa carreira de Comunicação Científica (mais conhecida como Divulgação Científica, mas por algum motivo eu gosto mais do termo “comunicação” do que “divulgação”). E para comunicar “natureza”, a linguagem verbal nem sempre é a mais apropriada. Minha opinião é que a fotografia pode nos aproximar um pouco mais das sensações envolvidas, do que uma descrição da natureza como algo “sensacional”, e é meio essa a essência do meu artigo.

Faz parte do repertório popular essa história de que a natureza nos traz sentimentos de paz que são absolutamente indescritíveis. Mas dizer que algo é “pacífico” não faz ninguém sentir-se em paz. Descrever uma experiência não emula essa experiência de forma alguma, ter essa expectativa pode ser bastante frustrante. Não digo que te mostrar uma foto de uma onça em extinção te faria “experienciar” a onça – mas pode ser a melhor alternativa em termos de sensibilização, se for uma boa foto. E o ponto do meu artigo é que a fotografia pode, de fato, transcender alguns preconceitos léxicos que se tem com o ambientalismo e com a ciência, e pode ajudar a aproximar as pessoas dessas coisas, que são tão bonitas e tão carentes da nossa atenção e cuidado.

Meu trabalho com Comunicação de Ciências é o de traduzir para a arte essa necessidade de atenção e cuidado, para aproximar emocionalmente as pessoas da natureza – mas também é o de traduzi-la para termos pragmáticos e economicamente viáveis, que é o tema do documentário que fiz chamado “Welcome To The Amazing World Of Sustainable Capitalism”, disponível com legendas em português no meu canal do YouTube.

Parque Estadual do Morro do Chapéu, Bahia – Brazil. Photograph by Leonardo Ramos

A natureza tem algo a ver com a sua música também?

O mesmo da fotografia!

Tem um livro fantástico chamado “As Portas da Percepção”, em que o autor Aldous Huxley distingue dois jeitos complementares de se perceber a realidade e adquirir conhecimento. Um jeito é ler bastante e conhecer as coisas conceitualmente. Seres humanos são particularmente bons nisso, mas a verdade é que o conhecimento conceitual é bastante incompleto se não for lastreado por algum conhecimento experiencial – e o Huxley é espantosamente crítico disso:

“(…) devemos aprender a trabalhar com palavras efetivamente; mas, ao mesmo tempo, devemos preservar e, se necessário, intensificar nossa habilidade de olhar para o mundo diretamente, e não através do opaco meio dos conceitos, que distorce todo fato dado para encaixá-lo em rótulos familiares e genéricos, ou em abstrações explanatórias. (…) em vez de criarmos adultos bem desenvolvidos, criamos estudantes das ciências naturais que são completamente alheios à Natureza enquanto instância primordial da experiência, açoitamos o mundo com estudantes das humanidades que não sabem nada sobre humanidade, a própria ou a dos outros. (…) Em um mundo em que a educação é predominantemente verbal, pessoas altamente educadas acham quase impossível prestar a devida atenção em qualquer coisa que não sejam palavras e noções. Sempre há dinheiro para, sempre há doutorados sobre o que, para os acadêmicos, é a questão de importância-mor: quem influenciou quem para dizer o que, e quando? Mesmo nesta era da tecnologia, as humanidades verbais são honradas. As humanidades não-verbais, a arte de estar-se diretamente consciente dos fatos da existência, são quase completamente ignoradas.”

Consciência, no sentido de “mindfulness”, é um conceito de popularidade notoriamente crescente hoje em dia. Depois do “fitness”, essa pode muito bem ser a próxima grande moda pós-moderna: a arte de estamos aqui agora, algo até então reservado para o deleite de abraçadores de árvores e religiões orientais. Hoje, cada vez mais pessoas parecem estar baixando aplicativos de meditação e fazendo yoga online. Eu acho que essa moda vem justamente de estarmos sacando o que o Huxley defendeu em sua obra prima psicodélica, e isso me parece muito positivo!

E isso é fotografia e música, para mim. Fotografia não é tanto sobre compor um Instagram coloridão, mas sim sobre estar lá naquele lugar, naquele momento, experienciando a natureza, vendo ela e tentando traduzir cada experiência particular em estímulos visuais, com o auxílio de uma câmera e um laptop. Da mesma forma, música não é tanto sobre ter álbuns no Spotify, mas sim sobre estar presente em cada batida, ouvindo e tocando, traduzindo uma infinidade de sensações e experiências em estímulo auditivo, com o auxílio de um instrumento e um bom par de ouvidos.

A natureza me inspira porque nela as coisas só são. A natureza dispensa as minhas inferências particulares, e me permite só estar, só ver, só ouvir e só ser.


Encontre mais sobre o Leonardo Ramos e seus trabalhos nos links:

https://www.thekiwi.com.br/

https://www.youtube.com/thekiwiartandscience

https://www.instagram.com/leothekiwi


Tem interesse em mais música irlandesa? Então vem ler a conversa com a Mila Maia:

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