Em Conversa • Padre Kevin Keegan

Pe. Kevin Keegan é de Derry, Irlanda do Norte. Hoje ele está baseado na Igreja do Sagrado Coração, na cidade de Galway, mas está com o coração dividido entre o Brasil e a Irlanda. A primeira vez que ele foi ao Brasil foi em 1987, para uma missão que durou dois anos, no entanto, ele poderia estar morando lá até agora, se seu destino não o tivesse levado a outro caminho. Mesmo agora vivendo em seu país de origem, ele ainda permanece imerso na cultura brasileira, trabalhando como cônsul honorário da Embaixada do Brasil e ajudando a comunidade a seguir sua “vida de sonho irlandesa”.

Ele acredita que a fusão dessas duas nacionalidades terá um impacto significativo no futuro da Irlanda. Os jovens que estão se formando na faculdade aqui e buscando uma melhor qualidade de vida estão fazendo algo de bom para si e também para a sociedade irlandesa como um todo.

Confesso que estava treinando minhas habilidades em inglês antes de ir para Galway e conversar com ele, mas quando conheci o Padre Kevin, descobri que ele fala melhor o português do que eu falo inglês e ele sabe mais sobre o Brasil do que eu sei sobre o meu próprio país, incluindo histórias da “Lenda do Boto cor-de-rosa” na cidade do Pará e o fato de alguns indígenas falarem mais de 3 idiomas; essas são algumas das maravilhas e vastidão do Brasil.

Igreja do Sagrado Coração em Galway

Como e quando começou sua conexão com o Brasil?

Fui ao Brasil pela primeira vez em 1987, para uma missão de dois anos. Eu morava no Pará, Belém, desde 1995 e voltei para a Irlanda em 2000, foi quando conheci os primeiros brasileiros que moravam em Roscommon. Eu estava em uma loja quando ouvi dois caras falando português e pensei que talvez estivesse ficando louco, pois já estava na Irlanda, mas ainda ouvia português. Esses dois brasileiros tinham acabado de chegar na Irlanda para trabalhar e me convidaram para um café em sua casa, onde moravam com outros brasileiros.

Lá eu descobri os problemas que eles estavam enfrentando; eles foram convidados a vir à Irlanda para trabalhar com promessas de que teriam casa, benefícios, salário e que as passagens aéreas seriam pagas, mas as coisas não estavam indo exatamente como foram informadas. Eles tiveram que pagar por tudo eles mesmos.

O contrato deles mostrava apenas o salário que ganhavam e o horário em que deviam trabalhar, mas não mencionava que o dinheiro seria deduzido do pagamento para pagar por essas coisas.

Eles começaram a indagar sobre seus direitos e a partir daí começaram os procedimentos legais contra os matadouros que os empregavam. Ao ajudá-los a mediar seus direitos, aprendi muito sobre os direitos trabalhistas na Irlanda.

Como o povo brasileiro aqui não falava inglês, eu estava escrevendo notas sobre os direitos dos trabalhadores brasileiros para que eles pudessem levar isso aos seus empregadores.

Então, você aprendeu o português para ajudá-los?

Aprendi português porque morava no Brasil e, na verdade, meu desejo era morar lá para sempre. Quando voltei para a Irlanda em 2000, foi apenas por férias e outros motivos pessoais, mas quando vi a situação desses brasileiros em Roscommon, senti-me compelido a ficar e ajudá-los. Logo, soube que problemas como os de Roscommon estavam acontecendo também em outras partes da Irlanda (Donegal, Cork, Dublin, Kilbeggan).

“Se eu não estivesse aqui para ver, não acreditaria que isso estivesse acontecendo neste país.”

Que tipo de problemas?

Pessoas que vivem em más condições, como casas com mais de 20 homens, dividindo três quartos, um chuveiro e uma geladeira. Uma situação precária.

Um dos matadouros foi fechado, um matadouro de frango em Roscommon, pois eles tinham muitas queixas e problemas com inspeções de saúde. Um repórter da RTÉ ganhou um prêmio por justiça social ao escrever o artigo sobre essa situação.

É importante que você possa esclarecer essas situações, já que somos uma grande comunidade aqui na Irlanda e talvez não possamos nos unir.

Não, não é tão unido. Costumava dizer que, infelizmente, o maior inimigo dos brasileiros aqui na Irlanda são os próprios brasileiros. Muitos brasileiros vêm aqui com uma perspectiva negativa e sentem inveja do crescimento de outras pessoas.

É difícil para todos nós, não é?

Sim, é difícil para todos. Todo mundo chega na mesma situação, alguns deles talvez com um pouco mais de experiência do que outros, mas se a comunidade se unir e se organizar, eles poderão ter poder neste país, já que o número é enorme. Eles podem até se tornar candidatos ao governo, com passaporte irlandês, e melhorar a situação da comunidade brasileira.

Antes havia o polonês, que era a segunda maior comunidade aqui na Irlanda, mas o último censo que tivemos foi demonstrado que a comunidade brasileira aumentou, pois muitos poloneses voltaram para a Polônia porque a situação financeira de lá melhorou.

Agora, faz 20 anos que trabalho aqui com a comunidade brasileira e há muitas crianças que vieram e estão crescendo aqui e aquelas que nascem aqui, esse número está aumentando, é outra geração. Os que vieram quando ainda eram crianças nem conhecem o Brasil, e alguns deles jogam rugby muito bem e também futebol gaélico.

Você vê que essas crianças e adolescentes estão agora em uma posição melhor do que seus pais, pois têm inglês melhor e melhores relacionamentos com pessoas de todos os lugares e [como conseqüência] estão mais integrados à sociedade aqui.

Trabalhando como cônsul honorário da Embaixada do Brasil, você também ajuda muito a comunidade brasileira, como exatamente você os ajuda e quais são suas recomendações para eles?

Recentemente, parte do meu trabalho é apoiar quem não possui documentos, alguns vieram ao país como turistas ou estudantes e acabaram ficando aqui. É um processo longo e difícil, mas não é impossível. Claro, isso depende de cada caso.

Idealmente, eles não deveriam fazer nada que pudesse chamar a atenção dos Garda ou da Imigração, nada que pudesse prejudicar sua reputação. Eles devem estar no sistema com seus números de PPS e pagar impostos.

Eu sempre os aconselho a manter um registro do que fazem, como guardar os recibos e também usar um diário para registrar as datas e horas de seus trabalhos e quanto eles ganharam. Tudo isso vai ajudar muito.

Quando você morava no Brasil, para onde você foi?

Eu viajei do norte para o sul. Estive em Manaus, Belém, Pará, Cuiabá, Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal, Fortaleza, Recife, Olinda, Belo Horizonte e Florianópolis.

Passei três anos vivendo e trabalhando em um barco no Pará.

O Brasil tem uma mistura interessante.

A origem de grande parte do Norte e Nordeste é indígena. São Paulo tem uma mistura de tudo, tem até a maior comunidade japonesa fora do Japão.

Qual era o seu lugar favorito?

Alto do Chão, no Pará, é o lugar mais bonito que eu já estive.

Como foi sua adaptação lá?

Foi fácil, porque os brasileiros me deram boas-vindas e isso me ajudou a me adaptar. Alguns deles me disseram que era porque eu era um bom estrangeiro, o que para mim era uma maneira de me receber. Alguns lugares em que fiquei não foram fáceis. Eu tive que me adaptar aos seus hábitos, [por exemplo] quando eu estava morando em um barco em uma área muito pobre, uma comunidade que não era tradicionalmente agrícola e pecuária, e nós íamos subindo e descendo o rio Arapiuns, com muitos peixes, raias e piranhas.

Quais foram as dificuldades, se você teve alguma?

Uma vez fui convidado para uma festa no Pará quando morava no barco. Chegando lá, todas as mulheres fugiram de mim e, no dia seguinte, perguntei-lhes por que elas fizeram isso desde que me convidaram para dançar e disseram que não sabiam se eu era homem ou ” Boto cor-de-rosa”.

A história do “Boto” é muito forte lá e é levada a sério. É uma história que o boto rosa sai do rio e se torna um homem branco bonito na primeira hora de uma festa para seduzir as mulheres e depois se torna um boto novamente.

Outro aspecto da história é que algumas pessoas dizem apenas o nome de uma criança que está sendo batizada quando o “Boto” passou por elas. Um dos seminaristas da época disse que isso era bobagem e ele teve que pedir desculpas a todos na comunidade ou não deixaria a vila vivo.

Faz parte da cultura deles e tudo o que faz parte de uma certa cultura está certo, provém de histórias e essas histórias têm significado para a comunidade.

Você enfrentou alguma outra situação curiosa por lá?

Poucas pessoas me disseram que os povos indígenas não são inteligentes, mas são muito inteligentes e sabem muitas coisas.

Eu estava em Oriximiná conversando em inglês com outros seminaristas sobre política e um dos indígenas da tribo Guaguai entrou na conversa falando inglês perfeito. Eles falam tupi guarani, português, inglês e francês. Enquanto andam pela Guiana Francesa e Suriname, eles aprendem.

O que é ser brasileiro, na sua opinião?

Alguém me disse uma vez que um brasileiro é uma pessoa que nasceu dançando samba e jogando futebol. O brasileiro é quem vive hoje; ser feliz e ter comida na mesa. Eles não pensam muito no futuro, não fazem planos de longo prazo. Os brasileiros gostam da vida, são alegres e amigáveis. Os brasileiros podem se misturar com qualquer outra “raça”. A palavra de um brasileiro tem valor, como eles dizem, se eles dizem que farão [algo] em que você pode confiar que eles farão. Eles são trabalhadores e não são preguiçosos. Essa também é a minha experiência com brasileiros aqui na Irlanda e muitos irlandeses dizem a mesma coisa.

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