Em conversa • Luci Collin

“Traduzi-las para uma cultura e um idioma como o português do Brasil, considerando quão distantes estamos geográfica e culturalmente, é um compromisso delicado e, sem minuciosa pesquisa, temerário, pois pode beirar ao superficial e equivocado.”

Luci Collin, ficcionista, poeta e tradutora curitibana, tem mais de 20 livros publicados, e um prêmio Jabuti. Concluiu os Bacharelados em Piano Performance e em Percussão Clássica, a Licenciatura em Letras Português/Inglês, o Mestrado em Letras/Literaturas de Língua Inglesa; pela Universidade de São Paulo, concluiu o Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários e dois estágios de Pós-doutoramento em Literatura Irlandesa. É professora aposentada do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPR, onde lecionou Literaturas de Língua Inglesa e Tradução. Ocupa a Cadeira n. 32 na Academia Paranaense de Letras. Ao longo de mais de 30 anos de carreira, escreveu artigos e ensaios para diversos jornais e revistas literárias, participou de antologias nacionais e internacionais (EUA, França, Alemanha, México, Argentina, Peru, Uruguai), e recebeu prêmios de concursos de literatura no Brasil e nos EUA.  Traduziu autores como Gary Snyder, Gertrude Stein, E. E. Cummings, Eiléan Ní Chuilleanáin, Vachel Lindsay, Jerome Rothenberg e Moya Cannon, entre muitos outros.

Em entrevista ao Programa de Estudos em Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina, você definiu seus trabalhos de três gêneros da seguinte forma: ‘Poesia: subjetividade, Ficção: cotidiano e Tradução: uma enorme paixão’. Logo depois alega que sua voz é diferente nos diferentes tipos de texto que escreve e que na tradução, a relação de paixão é que define os trabalhos que irá traduzir. Como se deu sua escolha de traduzir a poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin? 

Conheci Eiléan Ní Chuilleanáin em 2007, quando recebi uma Bolsa para Tradutores Literários do Governo da Irlanda e passei alguns meses em Dublin organizando e traduzindo o livro Contos Irlandeses do início do século XX (publicado pela Travessa dos Editores). Eiléan era professora de tradução do Trinity College e estava ligada ao programa dessa Bolsa, de modo que me reuni a ela algumas vezes para que houvesse o acompanhamento do meu projeto. Nessa ocasião tomei contato com a poesia grandiosa daquela que é um dos maiores nomes da poesia irlandesa contemporânea. De imediato, fui tomada por uma admiração imensa por aquela poesia tão intensa e sutil que Ní Chuilleanáin escreve e pensei num projeto de tradução. Precisávamos ler essa poeta no Brasil! Motivada por essa ideia, comprei os livros que pude da Eiléan, já pensando em organizar uma publicação de sua poesia em português brasileiro. Estaria de volta a Dublin em 2009 para apresentar essa antologia à própria poeta (isso foi muito emocionante – ter os poemas comentados pela própria criadora que, ademais, era professora de tradução) e em 2010 foi lançado o livro Hábitos do Musgo (pela Kafka Edições), que organizei com traduções de poemas selecionados de seis livros de Eiléan Ní Chuilleanáin. Com o apoio da ABEI e da Cátedra Yeats, da USP, conseguimos trazer a poeta para participar do V Simpósio de Estudos Irlandeses na América do Sul e, na ocasião, promovemos lançamentos do livro em São Paulo e em Curitiba. 

Ainda sobre Eiléan Ní Chuilleanáin. Como uma poeta irlandesa que escreve em inglês e em gaélico, você acredita que ela consegue captar a cultura, o folclore e as mitologias irlandesas em sua essência, e desta forma, nos permitindo mergulhar no universo irlandês?

Sem dúvida nenhuma a poesia de Eiléan Ní Chuilleanáin apresenta e nos revela, com singular profundidade, o universo irlandês. Não bastasse a sensibilidade poética excepcional dessa escritora, há que se considerar que Ní Chuilleanáin tem uma impecável formação cultural e intelectual – histórica, linguística, política, filosófica –, de uma amplitude enorme. Tudo isso empresta à sua poesia uma complexidade e uma solidez impressionantes. E ter acesso à percepção poética de alguém que é falante nativo de gaélico, idioma que remonta à constituição do povo irlandês desde os primórdios ligados à cultura celta, é uma preciosidade. Também a relação que Ní Chuilleanáin tem com os mistérios do religioso e do sagrado, além do domínio de diversos outros idiomas (traduz do italiano e do romeno), fazem de sua poesia uma expressão de extraordinário quilate. Conheço poucos poetas cuja obra correspondem e representam um mergulho tão criticamente profundo na cultura irlandesa quanto Ní Chuilleanáin.


Moya Cannon, outra poeta irlandesa a qual traduziu, se utiliza também de termos em gaélico, como por exemplo no poema “Taom”, que significa um transbordamento, geralmente no contexto de uma grande onda de emoção. Como foi o seu processo de escrita e pesquisa nestas traduções e essa conexão com a língua irlandesa?

A Irlanda tem uma história de considerável multiplicidade, com desdobramentos socioculturais, históricos e políticos muito significativos. É quase impossível realizar uma tradução literária se não houver um estudo aprofundado ao menos dos principais elementos que compõe a história da Irlanda desde sua formação porque a poesia é, em si mesma, a reconstrução de sentidos que se alimentam de muitos componentes culturais então recombinados linguisticamente pela visão e experiência do poeta.  Traduzir, indo além das palavras literais, é tentar recuperar ao máximo esse sentido que vai “por sobre” as palavras. Assim, logo ao iniciar os projetos de tradução, tanto da poesia de Ní Chuilleanáin quanto da de Cannon, quando da leitura para posterior seleção dos poemas, sempre considerei a necessidade de estudo para poder contextualizar a produção dos escritores. Ambas as poetas têm uma sólida formação não apenas acadêmica, mas ampla experiência de vida, o que se potencializa em sua poesia. Traduzi-las para uma cultura e um idioma como o português do Brasil, considerando quão distantes estamos geográfica e culturalmente, é um compromisso delicado e, sem minuciosa pesquisa, temerário, pois pode beirar ao superficial e equivocado. 

Em um de seus artigos, “Animais Da Mitologia Celta na Poesia Irlandesa Contemporânea”, você traduz para o português o poema “A moça que se casou com o cervo’, o qual retrata uma comunhão entre civilização e natureza, ou, metaforicamente uma divindade e um humano, e aos embates que essa inter-relação (ação da sociedade vs natureza) provoca. Essa abordagem no poema, nos faz perceber a conexão que os escritores irlandeses têm com os conflitos sociais por quais passaram?

Esse poema sempre me interessou muito justamente pela “ponte” que ele estabelece com o passado histórico e mitológico da Irlanda. Também essa temática de animalidade e de ancestralidade me interessa, por conta de outros poetas que traduzi que a exploram, como os norte-americanos Gary Snyder e Jerome Rothenberg. A poesia de Ní Chuilleanáin investe nessa tensão constante entre passado/presente e revela a ação e o impacto do tempo nas relações das comunidades. A história da Irlanda, sobretudo a absorção de elementos religiosos – seja da formação católica, protestante ou pagã primitiva – traz uma dinâmica que pede e pressupõe que forças conflitantes encontrem um apaziguamento ao longo do tempo. Há episódios dramáticos ao longo da história da Ilha Esmeralda, a resistência à invasão do Império Romano, a hegemonia imposta da Inglaterra e os consequentes problemas identitários e de pertencimento advindos disso, a Grande Fome, as guerras civis pela Independência, as ondas de Diáspora, a constante tentativa de se evitar o desaparecimento do gaélico, as crises econômicas, para citar apenas alguns. Vejo na poesia de NÍ Chuilleanáin exatamente essa possibilidade de revisão do passado e essa tocante preocupação de que se considere a porção ancestral, mítica, comunal como essencial para o entendimento do momento histórico recente.

Por você traduzir poetas contemporâneos, acredita que o passado ainda está presente nas poesias atuais, e de que forma é possível diferenciar? Como vê a poesia contemporânea no Brasil e na Irlanda?

Essa pergunta tem uma grande amplitude e minha resposta poderá ser  apenas genérica. Considero quase impossível compararmos o estado da produção poética aqui no Brasil ao da Irlanda dadas as discrepâncias culturais que os dois países apresentam. Desde a diferença geográfica, a extensão, a origem, o tipo de colonização, a antiguidade de cada país (a Independência da Irlanda, vale lembrar, foi reconhecida em final de 1922, mais de 30 anos depois da nossa), tudo isso faz com que cada cultura seja forjada de um modo particular. Mas a comparação é sobretudo difícil porque nesse momento no Brasil temos pouca ou quase nenhuma crítica literária, pouco fomento à escrita literária e, como consequência desse intricado mecanismo de produção/distribuição, a relação mais sólida entre leitores e poesia é minguada. Já na Irlanda, país muito menor e com uma relação com o literário muito diferente da que temos em nosso País, o fomento, a crítica, a absorção por parte dos leitores da produção contemporânea torna menos dramática a distância entre poetas e seu público. No entanto, há uma similaridade a ser apontada: a exuberância de ambas as produções. Tanto no Brasil quanto na Irlanda de hoje – independentemente das condições e dificuldades – poetas produzem muita e muito boa poesia. Ponto de esperança no futuro da literatura. Minha predileção e meu interesse por traduzir autores contemporâneos (principalmente dramaturgos e poetas irlandeses, ingleses e norte-americanos) surge justamente daí, dessa modesta vontade de mostrar aos leitores brasileiros a poesia que se faz em outros lugares. Acredito muito na importância da tradução enquanto esse estabelecer-se conexões. Isso é comunicação e compartilhamento. 



A presença de folclores e mitologia como é usado na literatura irlandesa é visível também em algum (a) poeta ou escritor (a) brasileiro (a)?

O Brasil tem uma cultura imensa e belíssima, representada pelos nossos habitantes nativos originais e sua vasta mitologia e pelo amálgama dessa cultura com todos os elementos das culturas de colonizadores europeus, dos povos dramaticamente escravizados vindos da África e dos imigrantes que aqui se estabeleceram (aproveito para deixar aqui a questão polêmica, da qual pouco se fala, acerca dos imigrantes irlandeses que se estabeleceram no Brasil). A beleza dessa reunião é colossal. Nossa brasilidade e nosso histórico – de norte a sul – está bem resguardada e viva no cancioneiro popular brasileiro, na expressão do cordel e na atualização do conteúdo que remonta ao nosso passado ligado diretamente à Europa medieval. No nordeste, nomes como os dos cearenses Cego Aderaldo e Jarid Arraes, o baiano Antonio Brasileiro Borges, o paraibano Apolônio Alves dos Santos e muitos outros, mantém essa tradição. No sul, a tradição oral da poesia é igualmente intensa e tem as mesmas origens antigas, que sobrevivem na payada de Jaime Caetano Braun, payador aclamado, e de gerações mais recentes, como é o caso do declamador Pedro Junior da Fontoura. Além da transmissão oral, temos muitos escritores que, com uma sofisticação toda própria, se apropriaram do imaginário do povo brasileiro, recuperando nossas lendas, histórias e figuras mitológicas (como o fizeram Lady Gregory e W. B. Yeats), além dos tipos e estereótipos nacionais (como o fez George Moore). O que dizer de Guimarães Rosa e Ariano Suassuna? E nosso Mario de Andrade, que nos legou a figura importantíssima de Macunaíma, ainda não absorvida pelos brasileiros (hora de fazermos a lição de casa!)? E pelo menos mais dois nomes na literatura devem ser citados: Monteiro Lobato, que estabelece esse marco na preservação de nossa mitologia e Flavio de Souza que, com a criação do sensacional Castelo Ra-tim-bum iluminou toda uma geração de crianças com nossos heróis originais e verdadeiros (pra longe das artificialidades importadas), como é o caso da Caipora. Salve a brasilidade e seu entendimento dado pela literatura!

As poetas e tradutoras Luci Collin e Eiléan Ní Chuillenáin, no Brasil, para o lançamento da Antologia de Luci “Hábitos do Musgo”.


“Poetry should not be about prizes”, Eiléan comentou em uma entrevista à Wake Forest University Press, em 2009. Você, como uma escritora premiada pelo Jabuti e nomeada ao Prêmio Oceanos, como lê a constatação da poeta irlandesa? Qual foi o maior prêmio que a literatura lhe ofereceu?

Uma obra poética só faz sentido se se mantiver fiel ao propósito do artístico, que é oferecer ao leitor o contato com uma experiência estética – por si, criticamente transcendente. Para além disso, tudo é mercado, vaidade, mecanismo de difusão midiática etc. Verdadeiros escritores mantém a coerência que se atrela à dignidade e responsabilidade de ser porta-voz de humanidade. Reverencio a postura de Ní Chuilleanáin – que se repete em outros grandes nomes da poesia contemporânea, como Adrienne Rich – quando reforça sua verdadeira função de poeta não estando submissa a prêmios e ao que eles muitas vezes têm de artificiais. Jamais me compararia a essas poetas, tenho noção da dimensão e do impacto de sua poesia. Na minha modesta presença na pergunta feita: sem nenhum medo de ser piegas, os maiores prêmios são os abraços sinceros dos leitores.


Você traduziu outros escritores irlandeses, quais foram os maiores desafios de traduzi-los para o português?

Traduzi autores irlandeses como Bram Stoker, James Joyce e W. B. Yeats entre alguns outros e em todos eles me deparei com os chamados “problemas de tradução”, expressões ou palavras ligadas ao contexto histórico da produção que demandam um trabalho investigativo de resgate e recontextualização na tradução. Um dos exemplos é do conto “Uma carta para Roma”, de George Moore, em que o personagem principal, um padre, diz que numa ocasião ele estava tão preocupado que não conseguia tricotar e deixaria a meia que estava fazendo de lado. Traduzir isso de modo literal não é difícil, mas a explicação, que eu não encontrava em livros, me foi dada pelo grande professor e erudito Declan Kiberd: na época da Grande Fome os padres, já que recebiam seu sustento, eram obrigados a “pagar” à comunidade fazendo trabalhos manuais, como tricô e costura, para distribuir aos necessitados de sua paróquia. Outras palavras do léxico do irlandês que passaram ao inglês (inclusive, com corruptelas, às vezes) ou referências a lugares que estão impregnados de relações históricas são exemplo dessas dificuldades. Você pode ter um bom domínio do inglês, mas isso por si não bastará para que traduza o sentido de palavras e expressões como “relief works”, “bocanachs”, “beehive huts”, “the famine roads”, “permafrost woman”, “dulish”, “take the pledge”, “fairy fort”.

Você disse que deve-se criar um método e uma relação do tradutor para com o poema. É possível criar uma relação pessoal com o (a) poeta traduzido (a)? Por exemplo, o encontro com a Eiléan Ní Chuilleanáin, como foi encontrá-la depois de tê-la traduzido?

Sim, eu tenho um tipo de “método”, mas que se refere à análise dos elementos de sonoridade, métricos, visuais de um poema. É um levantamento – um tipo de raio-X do poema. Isso me leva a uma estrutura muito reveladora, para além do aspecto semântico puramente, e que também dá sustentação a este. Não traduzo poesia se não for assim, com esse levantamento verso a verso, que é minha maneira de entender a organicidade do texto e como ele construirá o sentido. Gosto de, até onde possível, desvestir o poema, para entender como foi composto e como seus elementos concorrem para que seu sentido se exacerbe. A técnica faz parte da dicção do poeta. Isso é uma parte do processo. Agora, quando se tem a possibilidade de acessar o autor, é maravilhoso. Foi assim com Snyder e Rothenberg, amigos meus até hoje. Foi assim com Ní Chuilleanáin e Cannon, poetas muito acessíveis e generosas, com quem pude discutir pessoalmente as traduções. Agora estou traduzindo uma poeta norte-americana chamada Diane Goetsch e já recorri a ela para que me esclarecesse detalhes de certos textos. É marcante poder contar com os poetas na tradução de sua obra quando estão disponíveis. 

“Ní Chuilleanáin tem, uma educação musical formal e canta divinamente. Inclusive, quando esteve em Curitiba, surpreendeu uma plateia cantando uma canção folclórica irlandesa a capella. Foi um momento muito poético, em toda a acepção da palavra.”


Sua formação é em música, porém a literatura foi lhe convidando à escrever com o decorrer do tempo. Acredita que a relação música e poesia em sua formação se complementam, e qual o maior desafio no ritmo de uma tradução de poemas em português para o inglês e vice-versa?

Posso afirmar que se não tivesse formação em música não teria sido poeta e menos ainda tradutora. Todo o meu entendimento do que é um poema passa primeiramente pelo ritmo e pela sonoridade (acredito muito na palavra falada em poesia) e, em consequência da combinação desses elementos, ergue-se o componente poético enquanto linguagem, enquanto semantizado. Durante minha infância (comecei no piano aos 7 anos) e juventude, li, ouvi e executei sobretudo partituras. E como são textos próximos o musical e o literário! Até a terminologia – frases, semi-frases, incisos, respiração, dinâmica – é similar. Como não acredito em poema silencioso (o que não tem a ver com leitura subjetiva, ressalto) e nem em uma leitura que desconsidere o corpo, a voz, o gestual do leitor  seria muito difícil traduzir poesia se não pudesse me aproximar dela tomando por cerne sua musicalidade, seja sua melodiosidade ou sua rítmica. A mim me parece quase impossível traduzir certos escritores, como Gertrude Stein, James Joyce, Vachel Lindsay, por exemplo, sem o investimento para o resgate dos elementos de sonoridade que seus escritos contém. E as poetas irlandesas que traduzi, Ní Chuilleanáin e Cannon, ambas são muito ligadas à música. Ní Chuilleanáin tem, uma educação musical formal e canta divinamente. Inclusive, quando esteve em Curitiba, surpreendeu uma plateia cantando uma canção folclórica irlandesa a capella. Foi um momento muito poético, em toda a acepção da palavra.



Neste fragmento do poema ‘Taom’: A maré inesperada,/a grande onda,/ incontida, confronta a rocha,/ inunda o coração, na primavera ou no inverno.// Emergindo de uma língua esmaecida,/ a palavra vem quando necessária./ Um som escuro avança e reflui,/ seu esmero estabiliza o coração. É possível identificar neste poema os enfrentamentos que a linguagem têm; e talvez algumas diferenças de “tempo”, em todos os seus sentidos (distância, clima, fuso-horário, estações do ano, etc) para os poetas brasileiros que vivem ou viveram nos mares da Irlanda e para os que vivem nos mares do Brasil? Ou seja, estarmos divididos por um oceano nos difere em algum sentido ou tende nos afastar da língua nativa?

A experiência de mar, de oceano, de onda, de um ser humano tomado por reflexão no ato de observação do refluir das ondas é subjetiva e ao mesmo tempo universal. Não pertence, portanto, a uma única cultura e nem está encerrada em um único idioma. Independe mesmo da posição geográfica do observador. É algo atávico e ligado à ancestralidade do animal que somos. Você pode ter uma nostalgia de mar sem nem mesmo estar próximo a ele. Assim é com outros elementos, da Natureza ou da nossa existência psicológica, emocional, comunal. Na verdade, o poeta traduz a poeticidade, a essência dessa experiência. E o tradutor tenta levar a outro idioma o máximo que conseguir dessa poeticidade, compreendendo e respeitando os elementos e os mecanismos que a constituem, preservados assim em outro idioma. A poeticidade independe do idioma. Ezra Pound chegava a dizer que o interessa é ouvir poesia, não importa em que idioma, mesmo que você não domine o significado das palavras, a poeticidade sobrevive, nos toca, nos emociona. Ela é a transcendência da própria palavra que o poema nos oferece, é o que Cannon lindamente nos lembra: o transbordamento da onda.


Cover photo: Luciano Schmeiske Pascoal.

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