Bouchra Khalili e o Projeto de Mapeamento de Jornadas

Bouchra Khalili é uma artista visual marroquina-francesa. Criada entre Marrocos e França, estudou Cinema na Sorbonne Nouvelle e Belas Artes na École Nationale Supérieure d’Arts de Paris-Cergy. Ela mora em Berlim.

Caminhão encontrado com 39 corpos mortos. Uma tragédia decorrente da outra:

A imigração ilegal. Sim, isso mesmo que você leu. A imigração ilegal e uma tragédia, um marco na vida do imigrante que é acompanhado pela esperança de um futuro melhor. É tragédia, pois, ao contrário do que muitos pensam, não é uma escolha, mas sim a última tentativa de escapar da extrema pobreza, ou de situações de guerra.

A queda das fronteiras é um sonho sem tamanho e eu nao sou otimista. Há muita coisa envolvida na questão: cultura, economia, etnia etc. E como resolver o problema? Enquanto não nos é apontada uma solução, podemos, e devemos, nos aproximar da questão. É de suma importância entender a geografia da imigração antes de qualquer julgamento, pois, se pessoas arriscam a traçar percursos com o risco de não chegar ao destino final, é porque a esperança é a última que morre. E pode morrer mesmo. Entender o trajeto, o mapa, dessa trajetória nos ajuda a entender de onde as pessoas estão fugindo, trazendo um esclarecimento do motivo da fuga, e, também, qual caminho fazem. Caminhos esses que apresentam falhas nas fronteiras, abrindo espaço para o tráfico de humanos; no sentido de que não há somente imigrantes percorrendo essas estradas, mas também, a venda ilegal de menores, mercadoria contrabandeada etc. A imigração ilegal é um mercado negro no qual os que se adentram pagam com duas moedas: a primeira, monetária, a segunda, a própria vida.

Bouchra Khalili. O Projeto Jornada de Mapeamento. 2008-11. Vídeo de oito canais (cor, som). O Museu de Arte Moderna, Nova York. Fundo para o século XXI. © 2016 Bouchra Khalili

Bouchra Khalili, artista marroquina francesa, desenvolveu o  projeto “ The Mapping Journey”, obra de relevante importância tanto social como artística. Oito vídeos minimalistas que narram a trajetória de 8 resistentes, como a artista prefere chamar, ao invés de refugiados, mostrando no mapa mundi a trajetória perigosa que cada um percorre. Com apenas uma caneta, vemos uma nova cartografia sendo criada, uma geografia “invisível” mas existente, cercada de armadilhas e de pessoas dispostas a enfrentá- las. Cada vídeo apresenta uma história inesperada, com longas andanças, outras curtas devido a intervenção da polícia.

Não chegamos a conhecer o narrador, mas a sua descrição da rota, nos coloca, de certa forma, num lugar de empatia. Não tem sentimentalismo, apenas fatos. Em uma das histórias, no Mapping Journey # 6, um homem que deseja chegar à Itália descreve sua jornada deixando o Afeganistão. Ele atravessa o Paquistão até o Irã antes de caminhar para Istambul, viaja então, Bulgária, Hungria, Áustria, Alemanha, Bélgica, Inglaterra e França, finalmente indo para Roma!

“The Mapping Journey Project (2008–1111), uma série de vídeos que detalha as histórias de oito indivíduos que foram forçados por circunstâncias políticas e econômicas a viajar ilegalmente e cujas viagens secretas as levaram por toda a bacia do Mediterrâneo.” : //www.moma.org/calendar/exhibitions/1627
“The Mapping Journey Project (2008–1111), uma série de vídeos que detalha as histórias de oito indivíduos que foram forçados por circunstâncias políticas e econômicas a viajar ilegalmente e cujas viagens secretas as levaram por toda a bacia do Mediterrâneo.” : //www.moma.org/calendar/exhibitions/1627

A videoarte de Khalili não apenas nos ajuda a visualizar a rota traçada pelos imigrantes, mas também empodera dando à eles voz, indo além do que o jornal nos apresenta. 

Caminhão encontrado com 39 corpos mortos. Foi assim que nos foi apresentada a notícia, é assim que vêm a questão. O que está por traz disso tudo está longe do nosso entendimento.  É fácil lamentar, ou ainda, enxergar apenas 39 corpos. E por isso que o trabalho de Khalili é importante. Pois ela dá voz, o direito de narrar os fatos assim como eles foram, as diferentes 8 pessoas que poderiam ter morrido, mas sobreviveram.  E é por isso que ela os nomeia “resistentes” e não “refugiados”.

Conheça mais sobre a artista:

http://www.bouchrakhalili.com/the-mapping-journey-project/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *