ArteAria

Nasci e cresci em um ambiente muito distante da arte. Lá na minha casa, isso não era prioridade. Hoje, eu até entendo. Afinal, como dar importância a algo que não se conhece muito bem? Ou melhor, como priorizar a arte sem termos acesso à ela?

E foi assim que cresci: com pouquíssimo acesso a espaços culturais. Quando criança, minhas experiências artísticas se davam através das músicas que tocavam frequentemente num pequeno rádio em cima da mesa da cozinha. Lembro que, aos seis anos de idade, despertou em mim uma imensa vontade de fazer balé, que permaneceu até os sete, oito, nove anos… Eu não sonhava em ser uma bailarina famosa, só desejava saber como era a sensação de aprender a dançar. Quando percebi que era inacessível para mim, comecei a pedir para as amigas da escola que faziam aulas semanais de ballet me explicarem cada movimento. E foi assim que eu pude adentrar um pouco neste mundo. Houve até um dia em que uma coleguinha, solidária à minha intensa curiosidade, permitiu que eu experimentasse a sapatilha dela.


Ah, como eu amei a sensação de me imaginar dançando com uma sapatilha rosa de bico quadrado e fitas brancas me prendendo o tornozelo! Por alguns minutos, tentei me equilibrar, percebendo que aquela dança seria difícil demais para mim. Meus pés largos de tanto andar descalça pelas ruas não se adaptavam ao formato delicado da sapatilha. Aos poucos, a ânsia de fazer balé foi passando e, claro, como toda criança, logo arrumei outro desejo que substituísse o antigo. Meu novo sonho passou a ser aprender a tocar violão, mas as necessidades lá em casa eram outras e o violão, assim como o balé, não estava na lista. Rapidamente, deixei isso de lado e aprendi a me contentar em ouvir alguém tocando violão. Adorava quando encontrava alguém que dedilhava algumas notas, entre muita diversão, tarefas da escola e algumas repressões que já eram parte da rotina. O fato é que, apesar das restrições ao consumo artístico, tive muito acesso à criatividade.
Na adolescência, quando meu universo foi ficando tedioso por já não me empolgar mais com as coisas rotineiras, descobri um livrinho guardado entre cadernos velhos. Naquele momento, um novo mundo se abriu diante dos meus olhos. Encantei-me com personagens que me mostravam realidades inimagináveis para uma adolescente. A Ilha Perdida, da escritora Maria José Dupré, fez com que eu passasse horas entre as aventuras narradas. Quando dei por mim, a história se encerrava e, ao me deparar sem aquelas presenças, sentia um imenso vazio. Passei, então, a procurar por outros livros, pois precisava encontrar novas linhas para percorrer com os meus olhos. Só que livro, naquela casa, também não era prioridade. Não sei dizer ao certo quando aqueles desejos passaram a ser somente lembranças de infância, o que eu sei é que, a cada novo ano de vida, sentia uma necessidade incontrolável de ver e viver um pouco além daquelas urgências. Mas como?
Para mim, só houve um caminho: a arte. Fui inadvertidamente adentrando espaços que me permitiam conectar com alguns fragmentos dela. Atualmente, convivo com literatura, teatro, dança, música, boemia, fotografia, culinária, arte contemporânea, saraus, movimentos de rua e conversas soltas pelas esquinas. Confesso que, em todos estes encaixes, jamais tenha sido a personagem principal. Preferi ficar longe na platéia, exceto no teatro. O palco sempre estava livre para me receber ante uma plateia que fazia meu coração disparar por um mix indescritível de ansiedade e prazer. Acredito que deve ser algo parecido que os artistas sentem ao compartilharem suas obras. Que sentimento maravilhoso de se experimentar!
Hoje, depois de adulta, aqui em casa arte se tornou prioridade. Sigo meu caminho buscando locais onde meus olhos possam se encaixar. Ando pelas ruas desejando que meus ouvidos sejam surpreendidos por alguma sinfonia que vá além das cobranças cotidianas, à caça de momentos onde meu corpo possa vibrar ao ouvir um som eletrizante ou uma vozarrebatadora. Nesse lar de agora, nós encontramos nas artes a oportunidade de sentir qualquer emoção além das que cultivamos dentro de nós. É assim que consigo vivenciar bem mais que a banalidade cotidiana que nos querem empurrar goela abaixo. E se agora priorizamos a arte, não é porque nos sobram recursos, mas sim porque aprendemos a apreciar o pulsar das esquinas, dos encontros, dos movimentos todos em busca constante.


Eu não sou uma artista, sou Geizi Carla dos Santos, uma mera espectadora das pequenas e não raras oportunidades de presenciar os espetáculos que a vida nos oferece. Aprendi desde menina que, mesmo não sendo a artista da vez, eu poderei sempre me deliciar com a arte que o outro me oferece. E foi fuçando aqui e acolá que encontrei essa Diaspora, um espaço onde a arte transborda barreiras linguísticas e ultrapassa fronteiras geográficas!
Arte, poesia, música e tudo aquilo que não couber no peito se encontram aqui.
Foi no meu cantinho, observando silenciosamente os artistas que aqui se apresentam, que senti esse ímpeto de expressar um pouco do que sinto ao vivenciar essas artes. Dessa maneira, irei partilhar aqui diferentes sensações baseadas nesse olhar. E neste lugar de tantas possibilidades, você encontrará sempre a arte em doses generosas, pois ela está em tudo e sempre será uma Prioridade!

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